Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011
Carta a meu pai...

Pai e filho (fonte: Google)

 

Ontem, tinhas o olhar de ver muito além

E levavas pela mão este, que era quase ninguém;

Sorrias o teu sorriso de encantar

E achavas estórias de sonho na chuva e no luar;

Pintavas de sonoros azuis e verdes o amanhã

E nada retardava a passada desse teu afã;

Tomavas as dores como um alento ou elixir

E dizias, por gestos únicos, o amanhã, o porvir!

 

Ontem, havia pirilampos num arrebol de alfazemas,

Nas noites quentes dum estio de cansaço e dilemas;

Rios de suor e esperança a inundar as Ave-Marias

E um quase sussurro erguia-se das entranhas dos dias;

Ainda que desmaiasse o querer, logo o dever mandava

Que descosesses a sorte e, a sina mudava,

Ao mando das mãos e do teu corpo enxuto,

Que se firmava na honra do ser impoluto!

 

Ontem, nas horas amargas, sobrava o futuro

E um sonho crescia a par de ti, esforçado e puro,

Dando cor às cores dos campos sóbrios, floridos,

Desses tempos mornos e lentos, intensos, mas idos!

 

Hoje, o olhar esmaeceu, como se a aurora nublada

Trouxesse consigo o tantã dos dias e de rajada

Tudo fosse apenas pouco, ou quase nada…

Hoje o tempo cavou sulcos no teu rosto cru

E deixou que a alma esmorecesse e mostrasse, nu,

O ser que guardavas na concha da vida: tu!

Hoje, os dias esgotam-se no lento fugir das horas

Sem luares de riso, nem chiadoiro de alcatruzes nas noras!

 

Hoje, sei, pastoreias a memória e guardas, no cós

Das desventuras, um diário feito de cicatrizes e nós

Que denunciam o medo, a dúvida e a saudade atroz.

E o silêncio, que fala e gesticula e grita, quando te calas,

Diz mais do que queres dizer e, quando falas,

As palavras saem a meia voz, ecoando pardas e ralas!

Hoje, a luz que se projeta em ti, faz-te, ainda mais,

O homem que se fez homem no labor cativo dos ais!

 

Hoje, o sol e a lua nascem e morrem sem qualquer clamor

E as estações do ano chegam anónimas e partem sem fulgor!

E se, nas copas exaustas, o vento dá e amedronta o passaredo

Não é por ele que chega o futuro, que ainda é segredo!

 

Amanhã… Que notícia trará o tempo que há-de vir

E que estrondo de trovão rasgará o silêncio fazendo ruir

A certeza de que nunca te perderei e te perderás?

 

Amanhã, depois que descer o agora e depuser, em paz,

O seu cetro real, que ainda empunhas, que restará,

Que não seja a alegria, a honra, a gratidão e o amor, papá?

 

Ontem, hoje e amanhã… enfim!

Sempre seremos um só…

Carne da carne, pó do pó...

Eu de ti; tu de mim!

 

 

Em 01.Ago.2011, pelas 08h00

PC


Palavras chave: , , , ,

publicado por Paulo César às 17:37
link do post | comentar | Adicionar às escolhas

Sábado, 19 de Junho de 2010
Saramago

 

 

 

Dói-nos que partiste...

 

Mas ainda bem que ficaste

em todas as palavras escritas,

em todas as ideias defendidas,

em todas as lutas travadas,

em todos os momentos

em que do anonimato chamaste

o(s) Levantado(s) do Chão...

 

Não haverá Memorial que te possa lembrar

mais do que tu mesmo,

por ti mesmo!

Não existirá Jangada que te leve mais longe

do que aquela que saiu das tuas mãos de artífice

da palavra integral e concreta!

Não deixaremos que Caim volte a ser Caim,

às mãos de profanos,

nem que O Evangelho seja esquecido

numa gaveta qualquer,

à beira do ostracismo perene!

 

Combateremos a Cegueira

com a luz do teu destemor,

a coragem da tua honestidade,

a valentia do teu desapego ao ufano

e da tua entrega viciante

aos que semelhantes na origem

têm a noção das coisas pela realidade

da vida de todos e de cada dia!

 

Partiste...

para ficar ainda mais perto

porque a passagem de um Homem

só se torna digna e eficaz

quando resulta num hino de amor

à sua origem!

 

A ti Saramago,

planta nascida do chão

livre

integro

inteiro!

 

by Paulo César, em 20.Jun.2010, pelas 22h30


Palavras chave: , , ,

publicado por Paulo César às 22:31
link do post | comentar | ver comentários (2) | Adicionar às escolhas

Setembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


Sobre mim
Pesquisar neste blog
 
Posts recentes

Carta a meu pai...

Saramago

Arquivos
Palavras chave

25 abril(3)

alegria(5)

amizade(4)

amor(32)

Análise(3)

angustia(3)

asas(5)

busca(14)

desejo(5)

dor(4)

esperança(9)

eu(5)

futuro(6)

gratidão(10)

grito(5)

homem(4)

interrogação(4)

introspecção(8)

liberdade(11)

luta(3)

luz(4)

memória(7)

morte(5)

murmúrio(6)

natal(3)

natureza(4)

olhar(3)

paixão(7)

palavras(10)

passado(3)

paz(4)

poema(5)

poemas(35)

poesia(148)

saudade(17)

sentimentos(3)

silêncio(10)

sonho(21)

terra(4)

vida(5)

todas as tags

Ligações
Participar

Participe neste blog

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds