Sábado, 31 de Março de 2007
Perguntas sem resposta



Dono do mundo não sou

dono de mim também não
acaso sou dono das palavras
que povoam o meu ser?

Serei dono dos momentos
em que deixo correr a vertigem
e deposito na folha nua
os sentimentos solúveis

e tantos outros insolúveis
que me invadem de rompante
e se vêm sentar à soleira
dos meus olhos prescrutando

a vaguidão e os meus segredos
mais secretos, mais guardados,
aqueles que não ouso falar
nem para mim mesmo?



Se nada é meu, nem eu de mim,
que busco quando procuro
no recondito lugar sem fim?

O longe, o distante, o efémero,
ou simplesmente gasto o tempo
na loucura de estar ocupado?

by Paulo César, em 31.Mar.2007, pelas 17h15


sinto-me: inquieto
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publicado por Paulo César às 17:18
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Definição de dor...



Definitivamente a dor

doi,
moi,
dilacera,
esmaga,
constrange,
apoquenta.

Definitivamente a dor
avassala,
trespassa,
reduz,
desanima,
anula,
trama.

Definitivamente a dor
é
o busilis,
a questão,
o tema,
o assunto,
o motivo.



Definitivamente a dor é...
O quê?


by Paulo César, em 31.Mar.2007, pelas 17h00

sinto-me: dorido
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publicado por Paulo César às 17:06
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Terça-feira, 27 de Março de 2007
Desabafo...



Hoje apetece-me não escrever...
Vou fazer de conta que o dia de hoje não aconteceu
e olhar no espelho os meus olhos fundos,
arregalados e emudecidos,
quase atónitos, embriagados de perplexidade,
e encolher os ombros com a indiferença
velhaca de quem nada tem para dizer,
e no entanto diz...

Não! Definitivamente hoje foi um dia não.
Um daqueles dias que vêm na volta da maré,
no dorso das vagas, ao arrepio da vontade,
e que entram por nós adentro com o fragor de um soco,
a insolência de uma imprecação,
o destemor de um salteador,
e instalam-se sem pedir licença ou esperar
por consentimento.



Hoje apetece-me não escrever...

Que fique apenas o desabafo,
o suspiro,
o olhar vago, circunspecto,
as palavras maceradas,
quase em carne viva...

São assim os dias!
Difíceis... Pesados!
Autênticos!
Vividamente vivos...

by Paulo César, em 27.Mar.2007, pelas 23h00

sinto-me: exausto, desiludido
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publicado por Paulo César às 23:01
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Segunda-feira, 26 de Março de 2007
Talvez...



Talvez o amor seja
um passo em falso,
um tiro no escuro,
o voo acrobático duma ave
no azul turvo do céu,
um barco ancorado
num porto perdido,
cuja rota leva a lado nenhum,
um adeus de quem fica
a olhar o horizonte,
uma lágrima furtiva
que se perde na dor
rarefeita dum olhar translúcido.


Talvez o amor seja
a tua mão que se agita
fazendo um aceno,
um rio teimoso que corre
ao encontro do mar revolto,
de maré cheia e maré vasa,
um repetitivo eco da tua voz
silenciada pela demência
da saudade que alastra,
uma aragem suave
que corre sem pressa,
ou um vagalume
cego na noite sem lua.

Talvez o amor seja
um suspiro fundo
que cava a tua alma
e se aninha medroso
no silêncio da memória,
espreitando sempre
os dias soalheiros,
na esperança de que saibas
chamá-lo pelo nome.


Talvez o amor
seja o que tu procuras
na curva do tempo,
na aurora dos dias,
mesmo quando negas
ir à procura de ti
no lado secreto da vida.

by Paulo César, em 26.Mar.2007, pelas 22h00

sinto-me: impulsivo
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publicado por Paulo César às 22:00
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Terça-feira, 13 de Março de 2007
Por acaso



Por um acaso fui longe
no louco sonho do amor
Por acaso dum acaso
inventei a própria dor

Por acaso descobri
que sendo eu este que sou
só por acaso vivi
o que a memória guardou

Foram por acaso cartas
mil telefonemas, viagens,
mil outros sonhos sonhados
muitas esperas, miragens

Do acaso fiz parceiro
a quem tudo confiei
entreguei-me verdadeiro
do que restou já não sei

Só por acaso aqui estou
a escrever... e por acaso
do que fui e já não sou
não cheguei a fazer caso

Vivo dos sonhos pequenos
que engrandeceram meu sonho
e me tornaram ao menos
inteiro no que componho

O acaso não vem ao caso,
mas por acaso ou não
não é só obra do acaso
as palavras, o refrão.

Meu canto feito poesia
construo-o eu por acaso
dando mais em cada dia
apesar da idade ou prazo.

by Paulo César, em 13.Mar.2007, pelas 23h00

sinto-me: ao acaso
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publicado por Paulo César às 22:53
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Domingo, 11 de Março de 2007
Carta (em pezinhos de lã)



Sabes, hoje apetece-me dizer coisas sem nexo.
Coisas que tu entendas e que eu não saiba como dizer,
coisas simples, que se complicam na medida em que eu
sou incapaz de dize-las de forma escorreita,
simplesmente.

Hoje apetece-me escrever uma carta, com palavras
raras, quase preciosas, com consabidos sons que só tu
percebas e saibas decifrar no silêncio da leitura,
talvez sentado no sofá da sala, ou deitado,
de papo para o ar, no quarto cheio de luz que entra
como se jorrasse duma fonte eterna, duma nascente
miraculosa, dum algar de remotas cavidades,
quase uterinas, quase fermentadas no desejo ou no sonho.

Sinto as palavras deambularem por todo o meu corpo,
inundarem as minhas entranhas, aflorarem aos meus lábios
e, sem pudor, cavalgarem os meus braços, as pontas
dos meus dedos, que agitados e impacientes, buscam
papel e caneta e fazem uma algaraviada de rabiscos
enchendo de alto a baixo aquela folha branca, abandonada,
inerte, que se havia aninhado numa gaveta escura
como se aguardasse a hora de fugir, no sopro pressuroso
do vento norte, quando a lua estivesse pendurada na Via Láctea.

Sinceramente, apetece-me escrever, simplesmente escrever.
Amor, água, sol, pedra, silêncio, esperança,
cantigas, sorrisos, beijos, olhares,
cavalgada, liberdade, mar, azul, horizonte,
desejo, livro, poema, sexo, terra, rio,
sul, longe, pessoas, caminhos, nunca,
talvez, sim, porque não, obrigado!

Apetece-me marcar o tempo da escrita
com este impulso que me obriga a escrever,
que me empurra para o lugar único de mim
comigo, como se atingisse o extase, o climax,
o transe, e fosse nesse momento, que são muitos,
mas sempre únicos, estoutro de mim mesmo.



Tu sabes do que falo!

Tu sabes do que escrevo!
Tu sabes o que sinto!

Por isso, hoje, quando escrevo, apetece-me pôr
na folha lisa, sóbria, disponível, todas as palavras possíveis
e algumas espúrias, como guerra, armas, fome, doença,
solidão, abandono, ódio, desespero e todas as que não
cabem no meu dicionário de sinónimos,
porque não sei como traduzi-las (nem me apetece)
e cheiram a mofo, a morte, a corrupção da vida.

Como gostaria de escrever palavras bonitas, belas,
prenhes de fulgor e vida, transbordantes de luz.
Palavras capazes de por si mesmas construir amizade,
fomentar carinho, desenvolver ternura, desencadear amor,
cultivar sorrisos, entreajuda, felicidade,
e mandar, sem vacilar, para o caixote do lixo, real
ou virtual, todas as que não fazem falta e andam por aí
a causar desencanto e desacato.

Hoje, apetece-me escrever uma carta como nos bons
velhos tempos, pontuando os sentimentos com trejeitos
de paixão, de encantamento, de loucura,
para te fazer sentir de novo jovem, remoçado,
embevecido no embalo duma paixão avassaladora,
única e eterna, para sempre, definitiva.

Hoje, a carta que te escrevo, escrevo-a em pezinhos de lã,
como se cada sílaba fosse de algodão doce,
ou de farófias, ou de sorvete de leite e chocolate,
e cada palavra levasse consigo a cadência de beijos,
o sussurro de segredos, a fugaz ausência de um adeus
lançado de longe, antes do virar da esquina e da perda.

Não! Hoje esta carta quer dizer simplesmente
o que me apetece dizer, como se o tivesse que dizer
obrigatoriamente, antes de mais nada.
Tu és o destinatário e sabes o motivo.
O remetente também sabe a razão, só não sabe explicar
PORQUÊ?


by Paulo César, em 11.Mar.2007, pelas 20h15


sinto-me: estranhamente eu mesmo
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publicado por Paulo César às 19:44
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Terça-feira, 6 de Março de 2007
Quase sussurro...




À porta do amor perco

a esperança...

Deambulo sem destino

como naufrago...

Vou por onde me levam

os sonhos idos,

bandidos que assaltaram

o meu ego!

No chão frio espreguiço

ideias

vagas como vagas

que rumorejam

no lastro do areal,

quando a maré se espraia

até que o crepusculo chegue.

Nos lábios sinto o doce

que já foi...

o coração estremece

e não desiste...

há no silêncio a voz

do teu adeus

e as palavras que

inteiras se tornaram

hinos dum amor indomavel

que o tempo mata,

porque tudo morre!

 

by Paulo César, 06.Mar.2007, pelas 20h00

 


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publicado por Paulo César às 19:56
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Domingo, 25 de Fevereiro de 2007
Ganhos e perdas



O ganho de perder-te

é saber que não te perco,
porque perder-te
é perder a memória,
é esquecer o passado,
é enterrar o que fomos
um dia, uma hora, um minuto,
o que tenha sido,
fugaz e louco,
ou simplesmente
indizível.

Perder-te
significa perder-me,
abalar de mim em busca
de outro eu, outro ser,
outro homem novo no velho
que sou
e tomar um rumo, um norte,
um caminho impossível
de cruzar-se comigo, este,
e contigo, essa,
que um dia se cruzou
no ponto certo da vida
onde ocorrem encontros
impossíveis
de esquecer.

Perder-te é tão difícil
como amar-te...

E eu sei que dificilmente
vou deixar de te amar!


by Paulo César, em 25.Fev.2007, pelas 17h40

sinto-me:
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publicado por Paulo César às 17:31
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Sábado, 17 de Fevereiro de 2007
Aos amigos



Não quero choros, nem ais,

nada mais
quero de vós
do que um sorriso rasgado
e um olhar cintilante
onde a alegria impere

quero ouvir as vossas vozes
a contar mil coisas tontas
daquelas que fizemos juntos
quando a vida nos impelia
à loucura de viver

quero sentir que vos amais
no amor que nos uniu
na vontade que cingiu
nossos seres de gente boa
em busca do sonho novo
que sempre acanlentámos
mesmo quando já não sonhámos
e nos limitámos a ser
sonhadores do tempo ido.

Não quero saber que vencidos
vos destes ao abandono
de adormecer e pelo sono
não dar pelo tempo passar.

Quero-vos ainda e sempre
meus amigos,
a arrostar com os perigos
e a vencer a modorra
que um homem só o pode ser
quando mantém a porfia
e vai pela noite fria
em busca do sol radioso
que transforma a noite em dia.

by Paulo César, em 17.Fev.2007, pelas 16h45

sinto-me: fraterno
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publicado por Paulo César às 16:38
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Desejo de morte



Quando a morte vier

que venha devagar,
silenciosa,
insinuante,
na força duma bala,
no gume duma faca,
no nó duma corda,
no estrondo de uma queda,
numa sincope indolor,
ou como quer que seja...

Quando a morte vier
que eu esteja preparado
para a receber
e com ela beber um copo,
trocar uma conversa amena,
dançar uma valsa lenta
ou um tango fugaz.

Quando a morte vier
que seja dia,
sol vivo e a pino,
 luz vibrante e envolvente,
tempo de flores
e muita água nos rios.



Que haja pardais no arvoredo
e andorinhas nos beirados,
gente apressada nas ruas
e sons de música num rádio
incansável
donde brote alegria a rodos.

Quando a morte vier
que eu saiba da vida
tudo o que devesse saber
e que nada nem ninguém
chore a minha partida
mesmo sem querer.



Quando a morte vier
que venha bonita,
cheirosa,
requintada,
sorridente,
quiçá sexy...

É assim que deve ser
quando a minha morte vier!

by Paulo César, em 17.Fev.2007, pelas 16h15

sinto-me: pragmático
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publicado por Paulo César às 16:10
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