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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

06.03.10

No palco


 

Nos bastidores aquece-se a voz

buscando o tom certo para a prestação em vista

e os nervos crescem no suor frio

sentido nas mãos, que já não obedecem.

 

A plateia em frente murmura em silêncio

esperando que o pano suba logo após

as pancadas secas que anunciam,

próximo, o começo.

 

A banda sonora arranca em crescendo

e as luzes todas acendem o palco

escondendo o medo que o artista vence

com palavras ditas em estudadas poses.

 

Palmas libertam os fantasmas

que amotinados revoam na sala

assustando as sombras até ali caladas

por trás da cortina

e no fosso frio da orquestra muda.

 

Sobre o palco largo à boca de cena

um homem carrega o peso das palmas

que o fazem vergar o dorso dorido

para resignado sorrir e agradecer.

 

E quando a porta se fecha e as luzes se quebram

o palco adormece num sonho de mágoas

e as sombras caladas inventam gorjeios

de homens felizes que dizem poemas.

 

E em cada canto de todos os cantos

há cantos cantados por vozes de gente

que enganando a dor que deveras sente

lança vivos brados, tão fortes e tantos

 

que já ninguém ouve por julgarem insanos

os motivos e os medos que deles se soltam

graves e macilentas vozes que se revoltam

na paz podre dos dias no passar dos anos.

 

Ainda assim o palco assume o primado

e todos à uma, com vontade ou não,

tomam seu lugar e num dia marcado

vão dizer de si mesmos aquilo que são.

 

 

by Paulo César, em 06.Mar.2010, pelas 16h30

 

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