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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

29.07.09

Quem és tu?


 

Quem és tu?


A imagem que o espelho frio

reflecte

e tem olhos fundos de ver

para além da espessura

enquanto se derrama

entre a abstracção e o enfado?


A sombra desenhada no alcatrão

negro e impenetrável

pelo sol inacessível,

que vai pontapeando

pedras soltas

como se chutasse o medo?


O vagabundo que trauteia

canções de embalar

nas ruas desertas

convencido de que o luar é

a vela na mesa posta

para um jantar sem data?


O velho que repete

o gesto de limpar o banco

onde se senta todos os dias

para falar consigo mesmo

a amargura dos silêncios

e a alegoria dos afectos?


O emigrante que se afunda

num canto bêbado

a tomar folego para o sonho

e a desfiar cantilenas pátrias

com olhos transidos de frio

que não se compara ao desamor?


És tu alguém que eu conheço?

Ou a minha pressa empurra-me

para a insolência dum gesto

indiferente e irracional

com que me liberto da culpa

e me acomodo ao labirinto?


Ainda vou a tempo de te conhecer

reconhecendo quem és,

e aprendendo a ser eu?

Ou o tempo quebrou a ponte

e é impossível ligar o teu

ao meu lado da interrogação?

 

by Paulo César, em 29.Jul.2009, pelas 19h00