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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

20.05.11

Modesta definição de amor


 

Não podem as bombas apagar

A beleza que irradia da alma

Quando aos olhos se alevantam

As boninas e no claro silêncio das pradarias

Uma ave voa a traçar fios de luz

No lençol imenso do horizonte.

 

Amor é…

Querer mais que se querer

E, por bem-querer, içar voo

Para atingir as lonjuras do ser

A aura do amanhecer

O fôlego intacto das hordas que se ofertam

Em gestos de magnanimidade

Sem preço, nem quinhão.

 

Amor é…

Entregar-se na intocada maravilha

Da descoberta daquele que nos olha

E trás no fundo infindo do olhar

O grito calado de quem pede sem pedir

Tudo o que não se acha ou compra

Nos mercados, nas lojas ou nos botequins

E apenas flui dos anjos querubins!

 

Amor é…

Estar assim liberto da lei da gravidade

Que subjuga e nos impele a ser outros

Até nos espelhos onde nos achamos nus

E onde buscamos encontrar a maciez maquilhada

Da fronte como retábulo de artista intemporal

Que reproduz em lavores de magia

Os raios que acendem a luz além da luz!

 

Nem o toque marcial dum sino louco,

Nem o trepidar ululante duma arma cretina,

Nem o urro vingativo duma voz demoníaca,

Nem as enxurradas prenhes de rancor

Farão recuar a verdade profunda

Nascida da indefinível força do espírito.

Esse, ainda que impalpável, é o amor!

 

O amor é…

Nada mais se lhe pode ajuntar

Para o definir ou justificar!

Dizer mais é dizer nada!

 

 

Em 28.abr.2011, pelas 15h00

PC

09.05.11

Viagem ao centro de mim


 

Chancelaria - Coreto da minha aldeia natal (imagem obtida na net)

 

Do ontem veio a saudade

A emoção e a gratidão intemporal

Castigando de carinho e de beijos

A serenidade e o brilho da pele inteira

E a viscosa sombra do olhar

Incapaz de negar a alegria sem preço.

 

Agora já não há o fosso do tempo

A separar os corpos e os abraços

Ou a impedir o caudal das lágrimas

Pois consumado foi o reencontro

E cumprida foi a vontade

De voltar ao colo onde a luz se fez seiva.

 

Passos que foram caminhos feitos

Levaram-me de volta ao centro do mundo

E jorrou do mais íntimo de mim

A certeza de que, concluído o tempo,

Far-se-ão ainda caminhos novos

Para o reencontro do alfa e do ómega.

 

Que voem de regresso aos ninhos

Os pássaros que se aventuraram nas estepes

Dos lugares onde o nunca foi azimute

E que tragam pintadas nas asas as palavras

Heróicas da epopeia dos intrépidos

Que encontraram o zénite nas cãs nevadas

Das mães que souberam esperar a aurora.

 

Por onde quer que vá me saberei daqui

E quando me faltar o ânimo hei-de saber-me teu

Pedra das penedias que sobem aos contrafortes

Das montanhas de onde se avista o mundo

Que cabe inteiro no olhar lavado em pranto

De te querer ainda, sempre mais e tanto!

 

Sobram ainda todos os caminhos rasgados

Na comoção e na amplidão dos gestos

Como sobram todos os lugares intra-uterinos

Por onde fiz todas as partidas e regressos

E me quedei em todos os fins e recomeços.

Nada se alterou na memória viva do já vivido!

 

E a promessa que se consumou no concreto

De querer olhar de novo as casas caiadas

E os recantos envelhecidos no cristal dos dias

Já não é promessa: cumpriu-se! Vingou-se o tempo

Destruindo as alvoradas e os entardeceres…

Porfiadamente teimarei vingar a saudade!

 

 

Em 23.abr.2011, pelas 23h30

PC

Visita à minha aldeia e a minha tia Maria “Carraça” (90 anos)

 

05.05.11

Erupções do Silêncio - III (1º Prémio Poesia Casa MAC - 3º Classif.)



 Casa MAC (fac-simile da carta informativa da classificação obtida)

 

Adivinha porquê!

 

Que sabes tu de alegria

Ou de eternidade?

Ou de nós em pingos de chuva?

Ou de poemas com dores

Nas cruzes?

Ou de solidão com sabor a canela

E outras especiarias?

Ou de risos caiados de branco,

Para guardar a castidade

Dos beijos?

 

Ou de ti mesmo,

Que te furtas à senilidade

Inventando caminhos,

Mourejando os silêncios?

 

29.set.2010

PC