Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

08.12.10

Despojamento...


Tela by "W. Kandinsky" (imagem obtida na net)

 

Destoutra arte de ser

Nada sei,

Nada sou,

E escrevo nos silêncios as palavras malditas,

Como se sangrasse

As lágrimas e o suor em bagas.

 

Do acaso nasci e, por acaso,

Encontrei nas veredas

Os lagartos verdes

E os besouros,

Que sibilaram, sem tréguas,

O zumbido das dores

Caladas.

 

Onde irei, se os passos me levarem

Adiante?

Na verdade, que mal sei ou desconfio,

Distingo sombras e negrumes,

Onde arvoro farrapos de sonhos

E esconjuro fantasmas,

Cinzelando medos e superstições.

 

Grito tão calado que me dói

Saber que o sopro soprado não se expande,

Não se espraia,

Não explode no côncavo dos sítios,

A ganhar espessura de eco ou trovão!

 

Exaspera-me a voz que não é,

A força que não será,

O sonho que foi…

Este que sou não sou!

Sou este outro que não sei…

Metade da metade que não é unidade,

Nem será equação ou avo…

Serei um tudo nada!

Quem sabe… Poeta?

 

 

Em 08.dez.2010, pelas 00h15

PC

(inspiração com Álvaro de Campos)

05.12.10

Demencial


Tela da autoria de "Kandinski" (Imagem obtida na net)

 

Não te sei e canso de indagar…

Rasgo o véu e alcanço o devir

numa quietude doentia

a que me agarro na queda!


Destruo a inércia e assumo

que nada posso…

Esvazio o que farei ainda,

para sucumbir antes de ser

a folha amarelecida que cairá sofrida

no esquecimento chão!


Morro na ausência do ser

outro ou nada!

Nego linhas, augúrios e presságios

que se erguem do caos

erigindo amnésias

e submundos…


Tudo é tão cru de sons

que resvala para o insípido,

como se apenas restasse todo o tempo

na forma de um memorial!

O infinito toca-me

como se fora uma super nova!


by PC, em 23.Nov.2010

05.12.10

Quando te encontrarei em mim? (Alma...)


Tela de "Frank Lloyd Wright's" (imagem obtida na net)

 

Pesquisei onde suspeitei que estarias

E até nos lugares onde nunca foste,

Como se encontrar-te fosse uma promessa!

 

Nos filamentos do meu orgulho

E nas saliências do meu abandono

Inscrevi o teu nome a ferro e fogo…

 

Perguntei por ti a quem passava,

Afixei anúncios em letra desenhada,

Gritei nas ruas, sob cada arcada…

 

Inquiri o vento pelas madrugadas,

Com voz furiosa castiguei o silêncio

E até às nuvens mandei recado!

 

Ansiei que chegasses ao nascer d’alva

E, inquieto, fiquei de atalaia,

Mas adormeci na espera e de cansaço.

 

Desenhei nas sombras húmidas as tuas

Faces de filigrana e maquilhei de sonhos

A realidade de cada um dos dias pardos…

 

Sobre a cama, com lençóis de linho,

Estendi meu corpo desamparado e frio

A segredar uma dormência que te chamava…

 

Na impertinência do desassossego fiz preces,

De joelhos no chão confrontei o meu deus,

A pedir explicações para a tua demora…

 

E pelas avenidas largas, onde a chusma se rebela,

Mirei cada face a procurar o teu rosto de tela,

A descobrir os trejeitos dos teus passos miragem!

 

Onde foste que não encontro, na imanência

Dos lugares que foram tão intensamente nossos,

A aura com que te pintei na minha memória?

 

Sorvo cada pingo de céu para sentir-te aqui,

Mas se te evadiste de ti própria, anjo ou demónio,

Quando te encontrarei em mim,

 

Saudade que sobra

A castigar-me o desencanto?

 

by PC, em 23.Nov.2010

03.12.10

Po.Ética - Segundo


 

Que sensações sentirão as andorinhas

Quando voam rasando a terra em acrobacias de risco e vertigem?

 

Que sentirão as gaivotas quando caiem ferozes

Sobre a presa e tocam as ondas em giros de carrossel?

 

Que prazer, que odor, que gozo subirá da terra

Quando uma ave qualquer abre as asas

E se espraia pairando nas alturas,

Admirando os rios, os bosques, os caminhos

E os seres superiores que caminham nos seus passinhos

À procura do futuro?

 

Há-de ser fabulosa a excitação

De ter umas asas e subir ao céu

E de lá gritar à multidão:

- Aqui estou eu…

 

Depois olhar ao redor e sentir:

- O mundo é meu!

 

Em 17.Mar.1983

PC