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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

29.11.10

Cante


Monumento ao "Cante Alentejano", em Cuba (Imagem obtida na net)

 

As vozes soam guturais

Tresandam terra e suor

Alevantam o pó das leivas

E marcam, pela dolência inquieta

Do ritmo, a melodia forjada

Na força de braços.


Trazem no âmago a memória,

Que reforça o lastro com o sol a pino,

Nos montes onde o gado se torna

Igual entre racionais

E a terra se assume mãe e madrasta

Da gente que desnuda, com mãos

Calejadas e cravejadas

De saber sábio,

O útero que dá pão e dores!


Unívocas são as gargantas que replicam

Os sons dos campos largos,

Inundam de preces os lugares sem fé

Em agudos vibrantes que doem

E em graves tumultuosos que desenham

Ferros em brasa que dissipam

As auroras

Para acordar os campos e regar

As searas estremunhadas!


Doces palavras pequeninas invadem

O silêncio até o tornar colorido

E luminoso…

E por dentro, até ao mais recôndito

De cada ser, acende-se um lume

Que é fogo e luz,

Carreiro e futuro!


E da comoção das lágrimas

É que nasce o orgulho

E a alegria

De sentir-se alentejano

(mesmo quando só se é português!).

 

Em 28.nov.2010

PC

Homenagem às sublimes vozes dos Grupos Corais Alentejanos, que me levam à comoção de cada vez que os escuto, como se fossem coros celestes.

28.11.10

Po.Ética - Primeiro


 

Quando o sol nasce vem nu,

Despido de preconceitos racistas,

Aquecer todos por igual

E espalha os seus raios a granel

Em todos os cantos escondidos…

 

Nos campos aloira os trigais,

Nas montanhas derrete a neve,

Nos bosques desperta as lagartixas,

Nos ribeiros espelha-se nas águas

E ri-se de mim quando lhe faço caretas!

 

À noitinha deixa-me com um adeus suave,

Manchado de cores de oiro e vinho doce

E vai dormir um sono largo nas paragens invisíveis do meu sonho

Até que, sem ruído, volta ao outro dia

- nu sempre e mais rosado –

E abrindo-me as janelas de par em par

Vem deitar-se sobre a colcha amarfanhada

E ronronar nos meus braços nus

Como um gato bonacheirão!

 

Em 17.Mar.83

PC

28.11.10

Versejando - XXVII


 

Desisti de ser o balão

Que sobe no ar

Soprado pelo furor dum vento agreste

Que me sacode e me viola

Até à alma!

 

Desisti de ser a sombra

Que se arrasta pelo chão

Submissa como o mais dócil cão,

Sem latir e sem rosnar,

Inútil na ponta duma trela!

 

Desisti de ser a voz que acalma

O grito de quem ergue

A razão e o desassombro

Em palavras escavadas à força

Na turbulência do desassossego!

 

Desisti de ser

Outro que não eu mesmo!

E quando me perguntarem quem sou

Arremessarei o silêncio

Que estrondeará mil imagens

 

E outras tantas sílabas paridas

Nos destroços duma eugenia mórbida

Sob um manto de estrelas nuas

Que salpicam de luzeiros

As pútridas noites da criação!

 

Serei apenas arrátel

Ou quem sabe ínfima partícula

Que se acolhe na oblíqua pertença

Do indómito crer-se por si

Imortal ou… eterna!

 

 

Em 28.Nov.2010, pelas 23h45

PC

05.11.10

Urgência


A urgência não se diz

quando as folhas caiem

no Outono...

 

Talvez nem no Inverno,

quando a neve soterrar

os caminhos sem azimute!

 

Quem sabe quando,

faremos da urgência

um tempo de espera!

 

04.Out.2010

PC