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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

19.06.10

Saramago


 

 

 

Dói-nos que partiste...

 

Mas ainda bem que ficaste

em todas as palavras escritas,

em todas as ideias defendidas,

em todas as lutas travadas,

em todos os momentos

em que do anonimato chamaste

o(s) Levantado(s) do Chão...

 

Não haverá Memorial que te possa lembrar

mais do que tu mesmo,

por ti mesmo!

Não existirá Jangada que te leve mais longe

do que aquela que saiu das tuas mãos de artífice

da palavra integral e concreta!

Não deixaremos que Caim volte a ser Caim,

às mãos de profanos,

nem que O Evangelho seja esquecido

numa gaveta qualquer,

à beira do ostracismo perene!

 

Combateremos a Cegueira

com a luz do teu destemor,

a coragem da tua honestidade,

a valentia do teu desapego ao ufano

e da tua entrega viciante

aos que semelhantes na origem

têm a noção das coisas pela realidade

da vida de todos e de cada dia!

 

Partiste...

para ficar ainda mais perto

porque a passagem de um Homem

só se torna digna e eficaz

quando resulta num hino de amor

à sua origem!

 

A ti Saramago,

planta nascida do chão

livre

integro

inteiro!

 

by Paulo César, em 20.Jun.2010, pelas 22h30

18.06.10

Quase sonho...



(Imagem obtida na internet)

 

Tornar-se o sonho! O próprio sonho vir a ser...

Mais que fisico, carne ou pedra, ser chama,

Labirinto de sentimentos e aventura,

Lastro de mar em marés mais vivas que a dor,

Mais funestas que a morte;

Queda livre no infinito

De onde só a palavra será capaz de ressuscitar

A alma, pela força de um verso...

 

Devagar...

Medindo o tempo pela ampulheta

Dos sorrisos, dos abraços, dos beijos lançados

Com a palma da mão

Onde lemos o futuro!

Coligindo das horas todos os raios solares,

Todos os pingos de chuva fria,

Todos os frémitos revoltos da aragem indomada,

Dum vento que cavalga o dorso das estações

Com a mesma volúpia com que se enamora

Das ondas

Para deixá-las prostradas e rendidas

Na orla da praia,

Semi-cobertas, desnudas, entre os novelos da espuma,

Dossel de seda e cambraia!

 

Lábios que sabem prometer a eternidade

Lançam poemas na força centrífuga do éter!

Braços que sabem estreitar o medo

Dominam o tempo que há-de ser!

 

 

by Paulo César, em 18.Jun.2010, pelas 21h30

08.06.10

Grito!


 

"Guernica", de Pablo Picasso (imagem retirada da internet)

 

Sempre que busco o essencial, descubro o acessório e o secundário

E rendo-me à sofrivel incapacidade de ir mais fundo e mais  longe

Na descoberta do sonho ou do remédio que cure a teimosia exausta

Que continua a lançar-me para diante ainda que resignado

À certeza de que a chegada se fará dolorosa e a estrada será longa.

 

Dias e dias, teimosos e repetidos, passos e mais passos, perdidos

Na vagarosa e impenitente cisma de continuar ainda, sempre,

Mesmo quando o sol desmaia no horizonte e a luz se apaga nas janelas

Para acolher no silêncio pardo de noites gémeas de outras noites

Os braços soltos de amantes pressurosos, envoltos na penitência do amor.

 

Lagos azuis e pomares de estrelas, pintalgados de névoas e neblinas,

Sussurram na plangente abóbada do infinito, onde respiram os anjos

E vivem os querubins, entre as constelações das almas sofridas e eleitas,

Comensais da mesa dos salmos e guerreiros da irmandade da via láctea,

E se projectam as verdades absolutas e as incertezas jamais esclarecidas.

 

Nada sei de ser espírito, neste corpo de matéria frágil, mais do que um porção

De fé e uma descoberta permanente das minhas fraquezas e imperfeições!

Incomoda-me a debilidade que me atordoa e escraviza, como me seduz a infantil

Submissão ao livre arbítrio que uso sem regra ou lei, avesso a justificações

Injustificadas ou a metáforas, alegorias e avulsas retóricas de cartomante.

 

Diabolizo a inverdade e ostracizo a purulenta invenção da escravatura

Que engravida as vidas recorrendo às técnicas da sedução corruptiva

Da publicidade asfixiante e dos abjectos sinais de ostentação redundante

Como se tudo fosse um todo e todos pudessem tudo, mesmo quando

Todos sabem que tudo é relativo e tão pouco de todos.

 

A hipocrisia criou raízes no espaço, onde antes crescia a sorriso das crianças!

A resignação ganhou estatuto, onde antes se escutavam as lições de vida e o saber dos velhos!

O silêncio campeia autoritário, onde ainda há pouco se digladiavam paladinos da palavra!

E contra as bandeiras do respeito e da civilidade, drapejando no mastro supremo e soberano,

Crescem agora ódios arvorados em direitos, como se tivessem voltado os autos de fé

 

Das santas inquisições d’antanho – reviralho pós-moderno de lantejoulas e purpurinas!

Arrenego-te satânica arrogância de olhos doces! Falas mansas de consabidas palavras

Que seduzem incautos ouvintes e sensíveis corações de comoção expontânea  e bem-querer

À flor da pele! Vácuas e insalubres são as promessas que lançais aos quatro ventos,

Pestilências de severo calibre e contaminantes efeitos gotejam de vossos corpos de pústula!

 

Masmorras de sodoma! Antros de gomorra! Fétidos prustibulos de devassidão e orgia!

Jamais negarei a imperfeição que soletro na conjugação das forças que me faltam

Quando empunho a demência e me submeto à loucura do combate corpo a corpo!

Ainda assim, não me entregarei sem luta, à melosa semântica dos cânticos em falsete

Que vozes soezes irradiam a tingir o éter... De pé morrem os arautos da esperança!

 

De pé! De olhos em riste, como espadas que ferem o tempo e a cobardia

E lavam as dores dos corpos e da alma no sangue dos puros e dos heróis anónimos...

De pé! Como as árvores e os gritos de revolta, arrancados do humus dos ideais

De justiça, a conquistar o pão nosso de cada dia, e a luz, e a dignidade...

De pé! Com os braços em cruz e o corpo alagado no suor do mourejar dos dias!

 

Mas de pé!

Com a voz cristalina, como a água fresca das fontes e das nascentes tímidas...

Com a alma livre e liberta, à semelhança dos pássaros e dos poetas eternos...

Com o pensamento adulto, levedado no alfobre das ideias e na perseverança do amor...

De pé! Ainda que doa dizer não e o sono alastre a querer tomar-me de assalto!

 

Do homem se dirá: morreu... de pé!

 

 

Em 02.Maio.2010, pelas 23h00 - PC