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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

25.04.10

...Terra da fraternidade...


 

“…Terra da fraternidade,

O Povo é quem mais ordena,

Dentro de ti, oh cidade…”

 

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Ainda os gestos

Ainda as gargantas e o grito

Ainda os sonhos e a certeza

Ainda a terra, o pão, a justiça

Ainda os olhos rasos de água

Ainda a alegria

 

Ainda as estrofes do hino que ficou

Que ficará

Ainda a convulsão e o desassombro

Que nos empurra

Ainda a maré cheia de gente

Num chão de luta

Ainda o futuro tão longe

E o passado tão denso

Ainda o presente sombrio

E um país por construir

 

Ainda a cor que inundou corações

E floresceu entre Abril e Maio

Ainda as vozes que cantaram

“Trova do vento que passa”

Ainda o punho ao alto

Ainda o coro das vozes unidas

“O povo unido jamais será vencido!”

A plantar esperança em janelas

Ao som duma alvorada irrepetível

Ainda nós, sempre nós,

E um cravo rubro a tingir

De comoção e felicidade

“Os filhos dos homens que não foram meninos”

 

Ainda Abril, em todos os dias do ano…

Ainda Maio, em todas as memórias da vida!

Para sempre, Viva!

“A Liberdade está a passar por aqui…”

 


by Paulo César, em 25.Abr.2010, pelas 16h00

18.04.10

Incerteza permanente


 

quase sempre o pudor

outras tantas o medo

a submissa vontade

o constante degredo

 

dum lado o silêncio

do outro a magia

nos olhos perfume

nas mãos melodia

 

e palavras sem dono

a escorrer em cascata

até mesmo no sono

nascidas sem data

 

imagens sem cor

ciganas, vadias

a encher de odor

as margens dos dias

 

pedras de metal

madeiras de rocha

linhos de burel

luzeiros de tocha

 

avoengas dores

e tantas insónias

furtivos lavores

em colunas jónias

 

cardumes de abelhas

rebanhos de sonho

com palavras velhas

poemas componho

 

e lanço-os tal e qual as naus

no oceano imenso

serão bons, serão maus?

calo-me, duvido, penso...

 

 

by Paulo César, em 18.Abr.2010, pelas 20h00

16.04.10

primeiro amor


 

ao sorriso junto

os teus olhos claros

e uma nuvem suspensa no azul

a jogar com o sol

envergonhado

ao esconde-esconde.

 

depois tomo-te a mão

e carregados dum sonho

sem mácula

seguimos rumo ao paraíso

nas asas rebeldes

duma andorinha negra

 

acendemos a fogueira

da paixão

junto aos plátanos

da beira rio

murmurando palavras

doces e comuns

 

fazemos caminhos novos

pelas rua velhas

onde plantamos beijos

e guardamos os segredos

mais secretos

sob as arcadas dos prédios

onde nos abrigamos do calor

ou da chuva

 

com os olhos nos olhos

dizemos adeus

implorando um minuto mais

um outro beijo

ou uma palavra gasta

de tão repetida

 

e mesmo quando ficamos em silêncio

o grito agrilhoado que se ergue

na convulsão da saudade

anunciada

é aquele ridiculo

AMO-TE

 

que nenhum dicionário tem

palavras novas

que possam querer dizer

amo-te.

 

by Paulo César, em 15.Abr.2010, pelas 22h00

14.04.10

Poema deslumbrado


 

Desfaleço nos braços da noite

e adormeço no colo do luar

como se a poesia fosse

ainda

o lençol de linho

que minha avó punha a corar

ao sol do meio dia.

 

Que sei de palavras

tão cheias de odores

como as rosas nascidas

do ventre da terra

ou as papoilas rubras

sacudidas pelo vento?

 

Deixem-me dormir mansamente

até que a manhã me acorde...

Talvez assim eu possa sentir

o odor da madrugada

e morrer de amor pelas gotas de orvalho!

 

Em 14.Abril.2010, pelas 18h15

PC

14.04.10

Avô


 

No plano das águas

deposito o silêncio

transcendente,

descosendo das palavras

os nós que agrilhoam

as emoções

para me unir à mágica luz

reminiscente

do teu olhar

feito de memória viva

e saudade,

que implode no meu coração

até às lágrimas.

 

Quando foste,

ficaste mais autêntico

dentro do meu sonho

de quase menino

e hoje és ainda a realidade

imanente

dos meus dias

futuros.

 

Quando nos (re)encontrarmos

vou dizer,

num abraço imenso

o quanto te amo!

 

À memória e em memória do meu avô MAD, sonhador como eu e tão mais digno, recto e vertical.

Em 13.Abr.2010, pelas 10h40

PC

10.04.10

Dores e poesia


 

Duro planar de asas vencidas

lodo que trava meus braços de mar

gotejam meus olhos o pranto das fontes

e ao sol pôr dos dias acordo a revolta

 

Velhos entregues a cartas marcadas

num jogo de sombras em bancos sem alma

acordam memórias com sabor a fel

de vidas vergadas às ordens sem lei

 

Já não tenho cantigas nem sonho futuros

e a cadência dos passos já não é igual,

as horas são feias, incertas e colossal

é o desalento da gente a buscar seu rumo

 

De marés e mares faço quadros, pinto,

como se pintasse teus braços e beijos

e subo por ti, trepando aos sorrisos

que rasgam a couraça das palavras dor

 

Mourejam ainda calejadas mãos

a côdea de pão que lhes dome a ira

e à sombra dos ramos do farto abandono

reune-se o coro das almas sem dono

 

Livres, desvalidas, sósias do descrer

com asas nas mãos a fingir gaivotas

e olhos tão grandes que parecem ser

o farol do bugio escondendo as rotas

 

que levem pela estrada do mar mais além

às terras da glória e também da poesia

que o homem é senhor de si e ninguém

há-de sonegar-lhe a palavra com que faz magia.

 

 

Em 11.Abr.2010, pelas 23h00 - PC

09.04.10

Ambientes


 

Pelas praças largas

deambulam os olhares

vazios

de gente ausente

e dos beirais suspensos

caiem gotas de chuva

lavada

tal como o suor pelas faces

dos atletas.

 

Um barco vai

arroteando as águas

como charrua na terra mansa

e, em coro,

um magote de crianças

lança um estribilho feliz

como se anunciasse a taluda.

 

Ruas perdidas levam ao silêncio

e um raio de sol perfura

a carcomida vidraça

por onde uma velha espreita quem passa

fechada sobre a sua mudez.

 

Há beijos em lábios carmim

e sorrisos em olhos extasiados.

A lua cheia pendura-se sem pudor

por cima da janela vazia

e quando a chuva pára de cair

nos beirais suspensos,

as praças abrem os braços

e espreguiçam o tédio.

 

Só o barco teima lavrar as águas

enquanto os putos adormecem

um sono tranquilo

que os ajuda a crescer

como se o futuro fosse já

e nada mais valesse a pena.

 

Em 26.Mar.2010, pelas 15h15

PC