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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

22.03.10

Passos no trilho velho


 

Palavras... Sentimentos... Desejos...

Luz que inunda e dissipa a névoa...

Manhã a despontar... Noite a descer...

E um grão de saudade

a germinar nos olhos vazios

como erva daninha na seara dos sonhos!

 

Ao acaso lanço perguntas no silêncio

a querer que o eco traga as respostas

que nunca encontrei

apesar da penosa busca!

 

Lastro de dúvidas...

Tantas e tão fortes

que me despeço da vida

a pedir perdão

rezando uma novena de credos

que perderam fulgor

com o passar dos anos!

 

Só restam as sombras

dos nossos corpos apaixonados

teimando ainda...

 

E já não há futuro!

Apesar da memória...

 

by Paulo César, em 22.Mar.2010, pelas 23h30

06.03.10

Mãe, irmã, amiga, esposa - MULHER!


 

Da coragem, da ternura,
Do infinito teimar...
Olhos que amam, beijos candura,

Mãos que só sabem amar...
 
Dos seios, do colo, do ser
Da alegria, oh luz imensa,
Da esperança até morrer
Não há dor que aquiete ou vença!
 
Pelo sorriso e pelo pranto
Pelas palavras quase em segredo
Ensinas a vida e tanto, tanto
Que quando temes não é por medo

É por amor, por carinho,
A reinventar toda a entrega
De quem estando sozinho
De dar-se nunca se nega.
 
És a mãe que nos gerou,
E pela mão nos levou
Aos espaços da fantasia...
 

És a irmã que nos ouviu

Quando a dúvida atroz surgiu
Enquanto a alma crescia...
 

És a amiga confidente

A quem contámos naturalmente
As descobertas do desejo...

És a esposa que escolhemos
E a quem apaixonados demos
O ser que somos num beijo!
 
És tudo isto que descrevo
E tanto mais que não digo
És MULHER e a ti devo
O penhor de seres comigo
 
O amparo e o incentivo
Que me impele a ir adiante
Em busca do sonho, cativo
De ti, grato, feliz e amante.
 
 
Às MULHERES, no dia que é o seu
E à minha esposa, como preito de gratidão e muito amor!
 
by Paulo César, em 06.Mar.2010, pelas 22h15
 

 

06.03.10

A morte dos pássaros


 

Sabes porque morrem os pássaros?

 

Porque na orla dos rios

os nenúfares recusam

espelhar-se nas águas correntes

e os chorões se desnudam de sombra

no pico da primavera

quando o sol se apaixona

pela paleta de cores

dos campos verdes

onde cresce o malmequer,

a papoila

e o azevém.

 

Morrem de tristeza

pendurados no cimo de campanários

calados

na vã espera dum trinado

que lhes aqueça a alma

e os acorde para os dias claros

do tempo do recomeço!

 

Morrem, porque lhes faltam

o amor

e os ninhos

e a saudade se revela

na diabólica invenção

de cada novo dia!

 

Morrem, simplesmente

nas gaiolas douradas

em que os prendes

querendo que, libertinos,

te inundem de chilreios!

 

Morrem,

porque tu os matas!

 

by Paulo César, em 06.Mar.2010, pelas 17h00

06.03.10

No palco


 

Nos bastidores aquece-se a voz

buscando o tom certo para a prestação em vista

e os nervos crescem no suor frio

sentido nas mãos, que já não obedecem.

 

A plateia em frente murmura em silêncio

esperando que o pano suba logo após

as pancadas secas que anunciam,

próximo, o começo.

 

A banda sonora arranca em crescendo

e as luzes todas acendem o palco

escondendo o medo que o artista vence

com palavras ditas em estudadas poses.

 

Palmas libertam os fantasmas

que amotinados revoam na sala

assustando as sombras até ali caladas

por trás da cortina

e no fosso frio da orquestra muda.

 

Sobre o palco largo à boca de cena

um homem carrega o peso das palmas

que o fazem vergar o dorso dorido

para resignado sorrir e agradecer.

 

E quando a porta se fecha e as luzes se quebram

o palco adormece num sonho de mágoas

e as sombras caladas inventam gorjeios

de homens felizes que dizem poemas.

 

E em cada canto de todos os cantos

há cantos cantados por vozes de gente

que enganando a dor que deveras sente

lança vivos brados, tão fortes e tantos

 

que já ninguém ouve por julgarem insanos

os motivos e os medos que deles se soltam

graves e macilentas vozes que se revoltam

na paz podre dos dias no passar dos anos.

 

Ainda assim o palco assume o primado

e todos à uma, com vontade ou não,

tomam seu lugar e num dia marcado

vão dizer de si mesmos aquilo que são.

 

 

by Paulo César, em 06.Mar.2010, pelas 16h30

 

06.03.10

Breve descrição do homem comum


 

Breve o sorriso

e a pétala cai..

Sopro de aragem

que leva a saudade...

Raio de luz

penetrando o silêncio...

Fundo na alma

derrama-se o sonho!

 

Mãos sobre o colo

à espera de Deus...

Flor na campina

aspergindo aroma...

Pássaro azul

inventando destinos...

E o olhar quedo

procurando o verso!

 

Arrancado a ferros

o corpo segrega

gritos tormentosos

na espera final

e as papoilas rubras

viram madrugada

quando o dia nasce

e acorda a paisagem.

 

Tudo se completa

na curva da tarde

e aos ninhos vazios

retornam as almas

para chamar a lua

em preces de medo

crentes pecadores

sem aura nem credo.

 

Quando o sono entra

escancarando a porta

as luzes das casas

já não têm cor

e os pirilampos

chegam de mansinho

rebanho de luz

sem cão nem pastor.

 

Uma e outra e outra

estrelas cadentes

caiem na vertigem

dum sonho maldito

quais anjos sem asas

que o abismo toma

a exorcizar fantasmas

ou a criar herois.

 

Teimando, teimando

faz-se curta a estrada

e tão longo o tempo

que a memória trai

e de olhos fechados

já só vemos negro

o arco-íris brilhante

suspenso no azul.

 

Rendo-me à fraqueza

de ser sonho apenas

de inventar a dor

quando a dor não é

de rir sem razão

quando o riso é mágoa

de manter a esperança

quando perco a fé.

 

Rendo-me...

Mas fico de pé!

 

 

by Paulo César, em 06.Fev.2010, pelas 23h30

 

03.03.10

TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO DO COSMOS (ou uma breve analogia comigo mesmo)


 
Quem me achar
Perdido no mar das angústias
Dos meus dias sonolentos
Não se amedronte com o meu desapego
Ou a minha covardia,
Nem valorize a minha vaidade
Ou a minha impaciência.
 
Sou assim tal e qual
Estranho a mim mesmo
Medroso dos meus medos
Infantis
E destemido da minha razão
Incongruente
Fácil de palavras
Que devoro na modorra do silêncio
Baço e unívoco
Avesso à estridência da visibilidade
Que inflama sem sustentação
Para abandonar sem dó.
 
Sigo uma luz pequenina
E por ela pressinto chegar
Ao cume da serenidade
No topo tangível do sonho!
 
Mas que sei eu disso?
 
Desconheço a verdade que busco
Com insistente denodo…
E rio da minha teimosia
Por saber que não alcançarei
A justiça que auguro!
 
Acredito no amor…
Acredito na dádiva sem preço…
Acredito no sonho sem biombos
Nem sabotagens torpes…
Acredito nos teus olhos cristalinos,
No teu sorriso de papoila do campo,
Nos teus beijos com sabor a dióspiro,
No calor do teu abraço calado,

 Na promessa adivinhada

Do teu corpo ardente de paixão,
Na transumância vadia da tua saudade
Que me chama sem cessar
E me pede que não parta.
  
Acredito nas minhas dúvidas incessantes
E nas minhas inquietações permanentes
Acredito nas ondas do mar
Que se abandonam na areia da praia
Deserta
Acredito na aragem quente
E também na frescura das manhãs
Chuvosas
Acredito nas fases da lua,
Nas marés e nas profecias anónimas;
E desconfio dos anjos da guarda
Que falam por silogismos
E lançam ideias que são lugares comuns!
 
Acredito que sou
- Que somos - um pedaço
Do infinito…
Mesmo que o infinito
Não tenha cor, sabor, tamanho ou forma
E possa existir apenas
No meu pensamento selvagem!
 
Nada sei de relevante
Ou misterioso,
Mas empenho-me em ser
Constante e voluntarioso…
À noite durmo e sonho
Durante o dia sonho e teimo
Vencer a força da gravidade
De conceitos intelectualmente
Desonestos.
 
O determinismo acorrenta-me
E desencadeia nos meus sentidos
Reacções autofágicas
Que combato num ringue
Vazio
Onde a minha sombra
Se impõe na tragicomédia
Duma encenação surreal
Onde o monólogo que protagonizo,
De que sou também autor e plateia,
Diz da minha existência
Factos que o não são,
Para evidenciar qualidades
E defeitos que não tenho.
 
Simbolicamente estendo-me sobre o divã
Onde psicanaliso o tempo,
O espaço,
A memória,
Procurando adivinhar o futuro.
 
Entram pelas janelas abertas
O quarto crescente da lua,
O voo ruidoso dum avião,
O pio sibilino dum mocho sábio,
As cataratas de Niágara,
As Pirâmides de Gizé,
O tantã dos tambores duma tribo africana,
Os gemidos duma mulher possuída
Pela ardência do sexo,
O choro duma criança órfã,
O coro ululante duma claque
Num estádio enlouquecido,
O silvo dum comboio ou dum barco
Num cais de embarque, algures,
A miragem onírica dum oásis
No deserto de Kalahari,
Um grito de dor numa sala de parto,
Uma voz feliz
Declamando um poema de Lorca,
Um coro solene
Entoando uma cantata sem nome,
Um homem chamado Josias,
Uma mulher com rugas macias
E mãos de fada,
Uma imagem da terra vista do espaço
E uma fotografia dos anéis de Saturno,
Um cão, um burro, uma pomba
E um carreiro de formigas constantes,
Um rio quase mar
Na confluência da foz salgada,
Um barco a remos e uma gaivota
De voos incertos,
A noite… a noite… a noite…
E as esquinas escuras
Com corpos perdidos na confluência
Do álcool e da solidão,
Uma canção de ninar
Numa voz que conheço
Mas que não sei identificar,
Uma criança loira, ou morena,
Ou negra, ou cigana,
Ou apenas criança,
Um ruído como um assobio
Que se aproxima devagar
E se perde lentamente
Até que adormeço!
 
Quando o relógio me acorda
Já é outro dia…
Onde raio deixei eu os óculos,
Que me ajudam a ver melhor?
 

Em 13.Jan.2010, pelas 23h00 – Paulo César

 

03.03.10

Das flores e dos pássaros...



Sobram as flores nas tardes estivais
e os pássaros mortos
na orla do infinito
têm olhares sonâmbulos
de adivinhos sem aura.

Perco a viagem sem destino
e agarro nas mãos trémulas
os pedaços de tempo perdido
como fios de água imprecisa
com sabor a inquietação.

Recuso o assombro e espanto
as núvens no vértice da manhã
a lavrar erros e dúvidas
e a esconjurar artificios
qual espadachim do Demo.

Não me venço, dando-me por vencido!
Persisto na busca da fragrância
certo de que as flores são imorredoiras
e os pássaros, intemporais,
a Fénix que subirá dos meus sonhos.

Ainda são assim os homens comuns!



by Paulo César, em 22.Fev.2010, pelas 14h45

01.03.10

'Tou voltando...



Não sei se sentiram a minha falta...

Talvez não!

Será muita presunção, pensar que sim?


Tudo bem...

Mas estou de regresso ao meu cantinho... depois de um período sabático, em que aprendi a ver mais claro a claridade das coisas cinzentas que andam por aí, com ares de gente bem...


Filho pródigo... Ah, como é bom voltar ao lar!!!


PC