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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

22.12.09

Dores que o Natal carrega


Carrego as palavras

como anjos de algodão

desnudados da vergonha

ou da ingratidão

 

arrasto à força desejos

de paz e bem querer

como se todo o futuro

não fosse acontecer

 

repito sem cessar

este grito de revolta

por tudo quanto doi

e anda por aí à solta

 

afago o olhar mortiço

dos putos da rua toda

é que neles perdeu o viço

a festa, o riso, a boda!

 

e evito a voz amarga

dum velho da beira rua

que se crava como adaga

em mim, sonhador da lua!

 

e o meu riso é minha dor

e a minha dor um punhal

que se afunda com fragor

nesta quadra de Natal!

 

que entre luzes e filhós

da familia que se irmana

há tantos e tantos, tão sós,

na sua condição infra-humana!

 

oh presépio do amor,

oh cabana simples de luz

onde estás tu, oh Senhor?

onde mora teu espírito, Jesus?

 

seguem as horas e os dias

noites frias, chuva e neve,

e depois das alegrias

que sobrará que nos leve

 

a buscar outro caminho

que nos faça ser capazes

de dar alma ao coração

destes tempos tão vorazes?

 

Neste tempo, nesta época, nesta quadra, onde o peso dos sem peso sopesa e muito nas nossas atitudes, talvez valesse a pena tomar um caminho novo, que não passa por seu outro, mas passa por ser diferente.

Diferente perante si mesmo, perante os outros, perante a sociedade e perante a vida!

Diferente, para melhor, tendo presente que a mudança terá que ser radical e definitiva!

 

Talvez assim possamos festejar o próximo Natal sem a obrigação de ser Bom!

 

FESTAS FELIZES A TODOS OS QUE SENTEM QUE VALE A PENA APOSTAR NUM NATAL DIFERENTE!

 

17.12.09

Silêncio quebrado


 

Se todo o silêncio se quebrar

em pedaços miudos

indefinidos

incapazes de retomarem a forma

anterior...

 

É porque terá morrido um poeta

num lugar inóspito da Via Láctea,

à beira dum precipicio de sonhos

incontroláveis,

ao rés da maré cheia dum mar

sem nome,

no cume duma montanha

amante da lua nova,

num canto solitário e estridente,

onde as palavras sonoras

se espraiavam por si mesmas

em danças de rimas que não eram,

enquanto a noite inundava

as casas espantando o sono

de todos os loucos!

 

Morto o Poeta,

Viva o Poeta!

 

Que todas as palavras poema

são dignas das condolências

do silêncio quebrado!

 

by Paulo César, em 17Dez.2009, pelas 21h15

 

08.12.09

Breve memória da inocência perdida



Violácea memória

fermento de sorrisos...


Quando os olhos buscam

no plasma celeste

a vagarosa melopeia

duma canção de ninar

é tempo de maré vasa

para os lados da lua nova...


Vagalumes cirandam

de cá para lá no frenesim

da inocência...

e um tostão nasce

na travessura dum sonho

tornado real!


Regressaremos ainda

à ternura dum serão

pleno de castelos e castelãs,

de duendes e lobisomens,

de encantos e encantamentos,

ou morreremos virgens

na agressão do silêncio

a libertar sonhos

como se fossem pássaros de fogo?

 

by Paulo César, em 08.Dez.2009, pelas 17h45