Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

04.11.09

Poema improvável


 

A vagarosa luz

penetra a sombra

fecundando a penumbra

macilenta

 

a gélida chuva

irrompe intrépida

violando o silêncio

da terra prostrada

 

o vento suão

esventra as casas

aferrolhadas

e submete o espaço

 

a noite alastra

dominadora
acicatando os medos

que escravizam

 

o mar investe

marulhando

no areal exposto

em poisio

 

De olhos em riste

aponto algures

um ponto improvável

onde se cruzam

todos os sons e silêncios,

toda a luz e toda a treva,

todo o tempo e todo o espaço,

toda a vida

e o que virá depois!

 

by Paulo César, em 03.Nov.2009, pelas 13h15

 

 

02.11.09

Perdidamente perdida


 

Mas hoje nem riso, nem pranto

Que o dia é dia de Sol

Viver mais um dia, que espanto!

Sou feliz! No milheiral, girassol.

 

Excerto do poema “Não trago comigo não”, de Natália Nuno

 

 

De olhos no sol invento o futuro

que de longe me chama com sua voz mansa

e de quanto passou, luminoso ou escuro,

já só tenho a saudade, só me resta a lembrança!

 

Queria, ah como eu queria tanto,

ser pardal, andorinha, estorninho ou rola

para voar e voar, e não temer parecer tola...

Mas hoje, agora, nem riso, nem pranto!

 

Vou teimosamente e em contradição

afirmando ser o que nego ser,

sabendo que sou assim, ou talvez não,

destemida no medo de me achar ou perder.

 

Saio para o mundo e grito calada

em palavras sedentas, que são isco e anzol,

e tudo o que grito é tanto e quase nada...

Que este dia de hoje é dia de Sol!

 

Continuo viva desta vida que faz

mais curto o tempo que ainda me resta

mas, por ser assim dual, sou incapaz

de negar a saudade e recusar a festa!

 

Já quase descreio da fé que acalento

e tomo o silêncio, denso, como manto,

a desejar o rumor que é meu alimento...

Para viver mais um dia, que espanto!

 

Ser poeta é ser assim? É ser doutro modo?

É sentir a dor que ainda não chegou

pressentindo a parte e vivendo o todo?

Ou será esquecer tudo o que passou

 

para morrer na clausura do próprio ego

inventando a ternura e a paz, como farol,

que lançamos ao mundo de modo cego?

Sou feliz! No milheiral sou girassol.

 

by Paulo César, em 02.Nov.2009, pelas 18h45

Para a Natália, com amizade e carinho.

 

Pág. 2/2