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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

30.11.09

Poema insolente


Quero o tudo e o nada

para que nada me falte

e tudo me torne

pusilânime

e imbecil!

 

À semelhança dum animal

pré-jurássico

quero garras insolentes

e uma força aterradora

que me distinga

sem necessidade de marca!

 

Almejo a demência

a voracidade

o despropósito

a medonha aura

dum chacal

ou dum abutre

pronto a atacar os despojos

da carne infecta!

 

Onde a paz existir

levarei o terror

no lugar do silêncio

plantarei a escarninha dor

em vez de luz

trevas e sombra

que alimentarão o medo

e submeterão os sonhadores!

 

Proibido será o amor,

as lágrimas

e a saudade!

 

A orfandade germinará

no pântano da existência

e as papoilas outrora rubras

hão-de tornar-se roxas

como o luar de Agosto!

 

Quero o tudo e o nada!

Ou tudo... Ou nada!

 

 

by Paulo César, em 25.Nov.2009, pelas 19h10

 

28.11.09

Olhar de pedra



Violáceo olhar de pedra

enxergando a distância dum adeus

em ti o sorriso nunca medra

tu só conheces a frieza dos breus!


Nenhum trinado te faz ceder

à beleza do passaredo que voeja

que esse olhar não sabe ver

para além da solidão que de ti goteja.


Os prados verdes e serenos

os montes erectos e altivos

os bosques rudes e vivazes


nada é antidoto para os venenos

que alimentam teus olhos mortos-vivos

num corpo de medos tão mordazes.

 


by Paulo César, em 28.Nov.2009, pelas 09h45

 

28.11.09

Emoções


 

Cruzo as pernas,

os braços,

a estrada,

o olhar...

 

Sonolento,

no espasmo da indiferença,

rasgo o horizonte

nas asas enérgicas

duma gaivota de fingir,

sonhando a vertigem

e a liberdade.

 

Espanta-me a gravidez

e a flor,

o fio de água febril

e o zumbido da abelha,

o contundente ruido do silêncio

e a maciez cortante

do olhar de um puto.

 

Revigora-me uma nota solta

em sol maior,

um adágio, uma sonata,

um sorriso,

ou a sílaba final dum hino

que uma trombeta dissonante

aconchega numa última

colcheia,

colorindo o ambiente

com o sabor dos frutos

e o odor salgado do mar,

até alagar a alma

da quietude dos nababos.

 

Orvalho e madrugada

dã-se as mãos

no refúgio secreto dos deuses...

De mim sei apenas

a emoção!

 

by Paulo César, em 27.Nov.2009, pelas 20h00

 

26.11.09

Rei Sol


Framboesa magenta

azul e lilás

voragem cinzenta

num voo fugaz

 

acorda-se o dia

na aurora fulgente

escondendo a fria

noite pungente

 

cresce sibilino

alcandorando-se altivo

como arrogante inquilino

do celeste cativo

 

derrama sem lei

o que a lei não domina

portentoso rei

que tudo ilumina

 

e por milénios quedo

mas avesso à clausura

percorre em segredo

o dia todo e a noite escura

 

e quando o sonho se abeira

no sono dos vivos

ele vai sem canseira

com seus raios altivos

 

dar luz à cegueira

e libertar os prostrados

os sem eira nem beira

os desterrados

 

coado que seja

pelo manto nublado

é ele que se almeja

no Inverno cerrado

 

altares de ofício

são os cumes serranos

aras de sacrifício

levantai oh humanos

 

que aquele que explode

em tão constante explosão

é a vida que a vida sacode

e merece vossa atenção!

 

 

by Paulo César, em 25.Nov.2009, pelas 20h00

 

25.11.09

O novo pinheiro de Natal


 
E
se
o mar
revolto
se tornasse
no cadinho
onde o tempo
perpetuasse o infinito?


Plantaríamos fogos fátuos

nas montanhas lunares e nos

equinócios escreveríamos sinais

e com lumes acesos aqueceriamos

os silêncios e as solidões alheias e nuas

para que de cada nova noite se soltasse

um grito mais e tantos que o coro de todos eles

fosse a seara ondeante dum trigal de espigas loiras

sem ses
nem mas
nem talvez
nem nada
que não fosse
sorriso e luz
alegria e paz!


E ainda assim este poema tem a encimá-lo o se que tanto doi a quem só tem dores para desfiar à lareira dum fogo que não arde, porque a esperança está prestes a morrer no borralho da cinza quase extinta!


Apesar do pinheiro verde, cinzento é quase tudo o que à sua volta se move impaciente e impassível, no alheamento dum tempo frio onde os corpos gangrenados se escondem sob papelões velhos a mitigar o abandono dos simplesmente abandonados!

 

by Paulo César, em 24.Nov.2009, pelas 20h30

 

24.11.09

Vagarosa tarde


 

Vagarosa tarde,

quase noite,

porque vieste agora

acordar os meus olhos

vazios

para a luz preguiçosa?

 

Diabólica noite

de passos segredados,

que trazes, à solta,

nos cabelos de sombras

ou nos pingos inquietos

dum beiral incómodo?

 

Sonolenta aragem fria,

impiedosa invasora

das frinchas das casas

sem vivalma,

porque devassas a minha pele

tisnada do sol que foi?

 

Derradeira esquina,

que tropeças na avenida larga,

onde os candeeiros jorram

o caudaloso frenesim da luz,

que palavras ficaram

da correria indigesta dos dias?

 

Vagarosa tarde...

Deixa que levante ferro

deste pranto de palavras

alinhadas

e vá ao encontro do longe,

do nunca,

do jamais,

qual papagaio de papel

que o azul sugou,

como se fora ladrão

do espanto

e da loucura!

 

Deixa que me erga

suspenso e irreconhecível

na corrente

e expluda feliz

e sem cerimónia

uma chuva de risos,

como estrelas cadentes

ou flocos diminutos de neve.

 

Deixa! Deixa que morra

para renascer em cada dia

no sol pequenino

de ser teimosamente

poeta!

 

by Paulo César, em 23.Nov.2009,pelas 20h30

19.11.09

Oração (em voz alta)


Páro!

E quando já nada me apetece pensar

volto-me para o sol envergonhado,

no esconde-escode das núvens negras

e penso ainda...

 

E retomo a caminhada

na lenta passada dos dias

adivinhando a saudade

enquanto a chuva diluviana

sacode o silêncio poeirento

do Outono cinzento.

 

E olhando em redor

levanto as mãos em prece

e agradeço

uma vez ainda repetida e teimosamente

a luz e a treva

o sorriso e as lágrimas

o ser racional

e o ente espiritual

que me dá asas para ser livre

mesmo quando as palavras

me envolvem no silício

das regras sem fundamento.

 

E quando rezo

voo

e é nas asas da lonjura

que a alma me devolve

à terra

para amar sem medida

o que não tem tamanho.

 

by Paulo César, em 19.Nov.2009, pelas 22h00

 

06.11.09

Espaço onírico


 

O murro seco no ar infecto

onde o odor de nausea despoleta o riso

e os nervos de aço escalam a sonolência

violentando a névoa na manhã parida.

 

Fogueiras de espasmos acordam a ira

e o tropel da angustia desmaia no espelho

ante olhares prenhes da mórbida força

que cavalga as dunas e cala a revolta.

 

Tantãs tribalistas germinam nos gestos

singrando no golpe que o trovão dispara.

Crateras esventradas vomitam o sarcasmo

estrelejando o artifício dum fogo liberto.

 

Corpos seminus segregam fragâncias

aspiram dejectos na peleja dos ritos

e no umbral das portas abertas ao espaço

crescem aventesmas com olhos alados.

 

Frias dimensões conjugam ocasos

em quadrantes lascivos de sonoras imagens

avoengas figuras postam-se de atalaia

rindo de si mesmas em dementes miragens.

 

 

by Paulo César, em 05.Nov.2009, pelas 23h00

 

 

04.11.09

Grito do Ipiranga


 

Vinde vós os que calais as mãos calejadas

e tropeçais nas palavras a esconder razão

e com olhares pequenos alcançais o sonho

de escalar a dor e a imensidão


Vinde e desafiai o vasto e o longe

quietas silhuetas que o luar descobre

cavai as distâncias em passos de febre

veredas sinuosas onde o suor é nobre


aviltadas figuras de tantos silêncios

rostos de granito sem alma nem deus

frios corpos onde o sangue coalha


cravai a revolta na ponta da espada

esconjurai o medo, movei terra e ceus

erguei o pendão, preparai a batalha

 

(que a hora é de quantos não têm voz,

mas têm dignidade!)

 

by Paulo César, em 04.Nov.2009, pelas 19h15

 

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