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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

28.10.09

A sombra


 

A lembrança das horas

esconde-se com o por-do-sol,

mergulha nas águas agitadas

do mar da maré vasa,

adormece no colo do luar,

a escutar o pio sombrio

duma coruja inerte,

na torre sineira duma igreja

que já não é.

 

É no labirinto do vazio

que me acolho

a contemplar a sombra

que me persegue

persistente.

E rio de mim

um riso limpo

para me sentir outro.

 

E a sombra ri

o meu próprio riso!

 

 

by Paulo César, em 27.Out.2009, pelas 20h40

19.10.09

Que dor é esta


 
Que dor é esta que te dói
Mesmo quando não a sentes

E te amofina nos dias solarengos

Quando devias estar feliz

Contemplando o azul e sentindo

A aragem beijar-te a face silenciosa?


Que estranho poder tem essa garra

Que se entranha no teu corpo todo

E te obriga a ceder quando só desejas

Ir por aí ao acaso dos passos perdidos

A indagar os sons e os cheiros

Como se fosses alquimista ou génio?


Porque estranhas maneiras

Se aninha em ti essa quase intrusa

Deixando-te prostrado e amorfo

Incerto quanto ao futuro e dependente

Duma vontade que não é a tua

Mas se sobrepõe e se impõe?


Onde perdeste o teu sorriso?

A tua coragem, onde te abandonou?

Que é feito do teu olhar sereno e luminoso?


Porque morres por dentro de ti

No abandono do tempo e da espera

Se há futuro em cada pingo de chuva,

Em cada sopro de aragem,

Em cada raio fugidio de luz,

Em cada madrugada parida

Do ventre duma qualquer noite

Tenebrosa?


Levanta-te!

Suga a vida de cada momento único

De cada ocasião banal
De cada local improvável

E aventura-te nas asas do sonho

Até atingires o outro lado do conceito.

Liberta-te
E ainda que sintas dor

Atende apenas à tua vontade de vencer

E vencerás.


Sempre! Sempre!

Porque a vitória é algo que nasce

Da indomável vontade de vencer!

 

by Paulo César, em 02.Jul.2008, pelas 19h00

19.10.09

Palavras escolhidas


 

Construo com palavras

poemas de palavras,

só de palavras,

apenas de palavras...

E quando as palavras esgoto

busco mais palavras

para que com palavras faça

os poemas que as palavras acabam por dizer.


Tanta palavra dita,

tanta palavra escrita,

tanta ainda por acontecer!

 

by Paulo César, em 13.Out.2009, pelas 20h30

19.10.09

Porque me doem os domingos?


 

Sabes porque me doem os domingos?

 

Sabes porque me incendeiam ressonâncias

de sons e imagens

perdidas

que retornam nas horas sossegadas

frente ao televisor?

 

Saberás explicar-me porque vem a nostalgia

tão mansa como a aragem do final

da tarde

inundar o corpo e a mente

trespassando com a força

de um punhal

os sentidos todos

até me deixar inerte e devastado?

 

Que força indomável é esta

que entra pelas frinchas

e se apossa do espaço

para carregar o ar de uma luz translucida

que me torna frágil

dominando a minha vontade

e a minha racionalidade?

 

Que auréola satânica

traz o domingo consigo

que sempre se impregna em mim,

reverberando, como num labirinto,

vozes insanas que pedem socorro,

imagens idílicas que parecem mentira, 

sonhos luminosos, que viram pesadelos,

sentimentos silenciosos

que morrem por si mesmos,

na angústia duma solidão mostrenga?

 

Porque sãos os domingos dias tão austeros?

E tão devastadoramente pesados?

E tão vagarosamente cheios de silêncios estripitosos?

E tão luminosos duma luz parda, fria, bafienta?

E tão cheios de passos abafados, que ecoam nas calçadas

a caminho de sítio nenhum?

 

Porque são os domingos planos e inodoros,

vagos no tempo que os torna redondos,

pedaços de uma semana que começa sem um princípio,

sustentáculos dum circulo cujo centro

não me acolhe, nem me recusa,

mas me confunde e desmembra

como se quisesse tornar-me outro?

 

Porque me doem tanto os domingos,

a cada nova semana que chega,

deixando marcas indeléveis de angústia

aflitiva, demente, autofágica,

remetendo para uma luz que já não é,

um tempo que já foi,

um futuro que aconteceu sem aviso,

um caminho feito de tropeções

e recomeços?

 

Porque me doem tanto os domingos

fáceis, solarengos, inusitados,

se o tempo se esboroa sem notícia

nas débeis tardes do desvario

quando o horizonte se pinta de manchas

escarlates

e matizes de ocaso?

 

 

by Paulo César, em 18.Out.2009, pelas 20h00

 

17.10.09

Em nome da Terra


 

Bato às portas e pergunto:

até quando?

E o grito que ecoa nos cantos

diz-me de volta:

não sei!

 

Vou pela ruas, triste e andrajoso,

e pergunto a quem passa:

até quando?

E em coro respondem:

não sei!

 

Olho ao redor e enfrentando o horizonte,

questiono o silêncio

e a sombra calada,

que, sempre seguindo os passos que dou,

jamais me responde.

 

E a pergunta rotunda,

prenhe e repetida,

ancorada nas praças,

lançada nas ruas,

esvoaça pairando sobre as multidões

e como agoiro alastra

a incendiar temores:

até quando?

 

E quando a noite irrompe

a tomar seu espaço

e assenta arraiais sem pedir licença

por dentro das casas

cresce um alvoroço

de olhares severos em corpos de espanto,

quando o grito mudo

se solta expontâneo

das bocas fechadas:

até quando?

 

E o silêncio que fica depois da questão

é um grito estridente nas veias

sanguíneas

a pedir resposta:

até quando?

 

by Paulo César, em 17.Out.2009, pelas 17h45

17.10.09

Alvorecer


 

Volúvel madrugada...

 

Presos no fio das horas

fiapos de luz acordam

cobrindo as planícies

do abandono,

onde o orvalho cristal

se dependura da folhagem,

reflectindo faúlhas de arco-íris.

 

Pássaros azuis,

sonolentos ainda,

arribam, distendem as asas,

ensaiam o primeiro voo

matinal

e lançam-se em direcção

ao sul.

 

Vagarosas as núvens,

cúmulos fantasmagóricos,

pinturas abstractas

suspensas e gratuitas,

fazem percurso

no sopro perpétuo

do vento.

 

Da minha janela vejo

o que só da minha janela se pode ver!

E bocejo...

cheio do dia que acaba de nascer!

 

 

by Paulo César, em 14.Out.2009, pelas 14h00

14.10.09

Despedida


 

Na força do teu abraço

pressinto a fraqueza do meu sorriso

e o gesto que sobra

tem o tamanho dum adeus

e dois olhos vazios,

que buscam na distância

o amparo perdido,

ante a ausência que se instala.

 

No rasto do avião,

na marca dos passos,

no risco cavado no caminho

das águas

evapora-se a alegria

e tudo o que fica é memória

e saudade!

 

by Paulo César, em 14.Out.2009, pelas 10h00

 

08.10.09

Primavera


 

Telúrica a vontade

crispa-se na rudeza das horas

e adormece ante o indício

da espera.

Os abismos da dor

entrelaçam a esperança

num abraço singular

mortífero.

Paira nas ressonâncias

do sonho-pensamento-ideia

a incerteza do amanhã,

desenhado agora

como esquisso ou aventesma.

 

Maremotos de raiva

alagam as cercanias

da consciência naufraga

e cavalgando o Adamastor

do sombrio horizonte

o ponto cardeal, que é destino,

perde-se na bruma

amante de sereias e tritões

como se fora arauto da discórdia

ou da disputa.

 

A folha caída do Outono

reinante redemoinha

na força centrífuga das correntes

antagónicas
cruzadas

e tomba mais longe.

E já morta não morre!

E já prostada e só

incorpora a força de ser

nutriente e retorna ao ventre da terra

hibernando apenas,

na esperança incontida da Primavera

anunciada!

 

Glacial o alvo manto

ou o gélido tufão soprado de norte

chegará...

Chegará ainda o tempo

cujo tempo se fará de aconchego

e noites longas...

E as palavras, ladainhas,

pedirão o Sol!

 

E o Sol virá

como as andorinhas,

como as cegonhas brancas,

como a urze do monte,

como o malmequer do campo,

como o intenso amarelo da flor das mimosas...

 

Virá mesmo quando estiveres distraído

a contar estórias tristes

de saudades passadas.

Virá sempre!

 

Ah, como virá!

E tão primaveril...

a Primavera!

 

 

by Paulo César, em 07.Out.2009, pelas 20h15


 

05.10.09

Velhos


 

Para aqueles que são a razão de estar aqui!

 

Não vos sinto as dores,

nem vos oiço os queixumes,

nem conheço os vossos sonhos adiados,

nem sei dos vossos medos,

nem adivinho a grandeza das vossas solidões,

nem pressinto o fervor da vossa fé,

ou a grandeza dos vossos projectos,

ou a temerária audácia dos vossos futuros

de gente de mãos calejadas,

de pernas doridas e prestes a ceder,

de corações quase extintos, abafados,

dos vossos olhares nublados,

dos vossos sorrisos macilentos.

 

Sei de vós quase sempre, apenas,

o comprimento da vida

medida em anos,

em imagens fantásticas

que nos mostram, como se quisessem

calar-vos, enclausurar-vos,

numa redoma de luares de Agosto!

E esses não sois vós,

os velhos que eu amo velhos,

que eu respeito velhos,

que eu, numa vénia de quem agradece,

quero velhos,

dessa velhice que ensina,

que encoraja,

que enaltece,

que gera respeito,

que apela à escuta

das palavras simples e sábias

em discursos mil vezes repetidos,

a pedir ouvintes.

 

Quero-vos, velhos,

assim mesmo, velhos de tempo,

velhos de alma e espírito,

velhos de muito passado,

que apela a muito futuro,

velhos de muita dor e tristeza,

que pedem muita alegria e entrega,

velhos de muitos filhos e netos,

que apontam mais família,

velhos de muita fome,

que exigem muita solidariedade,

velhos de muito trabalho,

que merecem o trono da vida,

velhos de um povo do mundo,

cujo direito supremo

consiste em ser ainda

velhos!

 

Quero-vos VELHOS!

 

Valentes homens e mulheres,

Extraordinários pais, mães e avós,

Lindos rostos cujas rugas venero,

Humanos gestos onde o sonho perdura,

Olhos terrenos dum Deus presente, em

Sábias palavras que de ouvir não canso!

 

Quero-vos VELHOS!

Para beber dos vossos lábios

a serenidade que explode

como bênção

dos silêncios que caem depois das palavras

enquanto buscais no baú das memórias

o saber que o tempo decantou

em arquivos onde sois os guardiões!

 

Quero-vos...

E porque assim o aprendi de vós

vou esculpir na pedra da vida,

a cinzel, para que não se perca

na voragem do tempo,

o louvor que as vossas cãs merecem:

 

Queridos velhos, velhos são os trapos!

 

 

by Paulo César, em 05.Out.2009, pelas 17h00

 

05.10.09

Vale a pena (sempre)


 
No prolongamento do sonho
Lanço papagaios de papel
Presos por fios de futuro

Coloridos, quais arco-íris,

Que forjam a ponte suspensa

Na abóbada do horizonte
Plúmbeo!


Algures um silvo agudo,
Um sinal, uma mancha,
Uma espécie de aguarela

Alastrando no espelho celeste,

Define os contornos da loucura

Que inunda os dias repetidos

E austeros!


Jamais o nunca definitivo,

Ainda que recuses a radical

Ousadia do não ou do sim
E busques na intermitência

Das palavras nuas e perversas

A intrepidez da inocência
Fugaz!


Ide! Vede! Perscrutai na espuma

Das ondas o ronronar dos abismos

Oceânicos! No rasto das vagas

Que se despem nos areais desérticos

Encontrareis a volúpia da nudez

Que incendeia o clímax irrepetível

Do orgasmo!


Aprendereis o dom da meditação!

E ainda que o ruído alague o espaço

Transformando em pântanos de lodo movediço

As saliências da geografia humana

Sobrarão o silêncio e a paz

Nas chispas do olhar vagabundo

Dos homens de boa vontade!


E, apesar de tudo,
Vale a pena acreditar!
 
 
by Paulo César, em 02.Mar.2009, pelas 22h30

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