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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

28.09.09

Amor por outras palavras


 

Quero falar-te de amor

com palavras simples,

escorreitas,

lustrosas e puras,

sem trejeitos,

como se falássemos da chuva

que fustiga as vidraças;

ou do vento que sopra

nos ramos desfraldados

das árvores hirtas;

ou do luar manso e cândido

que inunda as noites frias;

ou das águas continuamente limpidas

dos ribeiros silenciosos,

onde as rãs procriam

e coacham sem regras;

ou das viagens que não fizemos,

porque o sonho morreu em si mesmo;

ou da música que se solta

em todos os recantos nocturnos,

sem que se saiba do maestro

ou dos instrumentistas;

ou das aves que voam,

que gritam,

que cantam

e nidificam nos saborosos

lugares do assombro;

ou das altas montanhas

onde a urze cresce e a rola

se espreguiça dona do espaço agreste;

ou das hortas frescas

onde a água corre em regadeiras

estreitas e a sede se entrega vencida;

ou da algazarra das crianças

em bandos, em turbilhão,

lançando vozes que ferem o presente

na peugada dum porvir

desenhado a lápis de cera;

ou da cadência arrastada dum caminhante

cuja força se perde entre um e outro passo,

porque a velhice lhe tolhe os movimentos.

 

Ou de como é fácil ser louco

quando se busca uma forma nova de dizer

amor

com palavras tão iguais

a si mesmas, que se estranha

o ritmo e a musicalidade

das consoantes e das vogais

na cadeia consequente do poema.

 

by Paulo César, em 28.Set.2009, pelas 17h30

 

28.09.09

Tu e eu, somos nós


 

No silêncio dorido,

da separação impossível...

Na distância breve,

do “adeus, até logo”...

No murmúrio vagaroso,

dos afectos sublimados...

No olhar adormecido,

com que fitamos distâncias...

Na mão transpirada,

com que lançamos beijos...

Nas palavras bravias,

com que defendemos ideias...

Na sombra inquieta,

que nos segue impiedosa...

Nas certezas infantis,

a quem damos colo...

No templo do amor,

onde nos tornamos loucos...

No tempo das quimeras,

onde construimos

e concretizámos

sonhos:

Tu e eu, somos nós!

 

by Paulo César, em 28.Set.2009, pelas 13h25

 

23.09.09

Andarilho da interrogação


 
Perco-me,

andarilho da interogação,

pelos caminhos calcorreados da dúvida,

a questionar razões

e a confrontar motivos.

 

Fecho os olhos para ver mais claro

o véu que separa a luz da sombra,

a verdade da mentira,

a razão da loucura,

definindo as ténues fronteiras do ser

integral.

 

Todas as perguntas são possíveis!

Todas as interrogações são necessárias!

As respostas, essas,

serão portas abertas à espera

do amanhã

incessantemente questionado!

 

 

by Paulo César, em 22.Set.2009, pelas 23h00

23.09.09

Nunca


Nunca te direi adeus,

ainda que partas.

- A amizade perdura

para além do olhar!

 

Nunca te direi adeus,

ainda que morras.

- O amor não fenece

no coração de quem fica!

 

Nunca te direi adeus,

ainda que, ausente,

faças por apagar

o tempo e a memória!

 

Nunca direi nunca

certo de que jamais entenderei

o valor e o peso de palavras

inúteis!

 

Redondos vocábulos

feitos de letras proscritas,

que crescem em ambientes salobros

onde a pestilência domina?

 

Nunca!
 
by Paulo César, em 19.Set.2009, pelas 09h00

 

21.09.09

Imperfeita perfeição


 

A propósito do poema "Concretizar", de Maria Luisa Adães

 

 

O concreto é

pedaço de nada que a vida incendeia,

vagalume que tremeluz na noite

fria e de cuja fosforescência ressalta

o sorriso das crianças!

 

O concreto é

ser avião, cujas asas de ferro imitam

o pássaro de fogo de cuja gaiola dourada

se liberta a vontade de ir ao infinito,

sem temores, nem cedências!

 

O concreto é

caminhar pelos carreiros que o formigueiro

desenha na vertigem da marcha insolente

e atingir o cume da imaginação

no beco da dor e da dúvida!

 

O concreto é

tornar-se amador do amor todo,

comezinho e libertino,

e plantar sombras ao sol do meio-dia

nos adros do rumor e do silêncio!

 

O concreto é

a imperfeita perfeição

do teu olhar que recusa ver mais longe

como se o futuro fosse a  vela extinta

de cujo pavio já não se soltasse luz!

 

O concreto é...

tudo o que se concretiza

mesmo quando a imagem no espelho

já só mostra uma parte do todo

que foste e se transformou, porque o incorporaste

no fundo mais profundo de ti mesmo!

 

O concreto és tu!

E é em ti, e por ti,

que tudo o que teimas negar

se concretiza!

 

by Paulo César, em 21.Set.2009, pelas 22h00

 

15.09.09

Balada para o silêncio todo


Sento-me!

Tomo para mim

o silêncio todo,

aquele que se desprende

das palavras que tento dizer

e subtraio aos poemas

a aguardar outras rimas,

outras ressonâncias.

 

Sorvo-o e com ele

alimento o humus

sanguineo,

no tic-tac compassado

e compassivo

da respiração controlada,

enquanto olho o nó górdio

da minha inquietação

vagarosa.

 
Distendo-me,

abandonado e incoerente,

no sopé da teimosia,

espelhando nas sombras,

que me perseguem,

a dicotomia dum ser

surreal

de tão palpável.

 

Onde vou

levo-o

(e ainda que o não levasse

ele iria por si mesmo)

e com ele estabeleço

acordos e disputas,

risos e lágrimas

nos unem

e por vezes unificam,

e um sentimento

de amor-ódio nos irmana

até nos dilacerar.

 

Quando me regozijo,

ele acicata-me!

Quando me penitencio,

ele toma o peso e alivia

a pena!

Quando me abandono

e procuro o degredo

e a perdição

do regresso às origens,

ele abre as janelas

e ilumina todo o espaço

para que não desista de nada!

 

Quando nada me resta

para além de mim mesmo,

ele surge do imponderável vazio,

assenta arraiais

e fica por aí

deambulando sem destino

a tornar imenso o tempo

e reconfortante o espaço!

 

E é em silêncio que o tomo

como confidente,

falando-lhe, por sinais,

o dialecto da comoção

e do encantamento!

 

by Paulo César, em 14.Set.09, pelas 23h00

 

04.09.09

Para ti, Mãe


 

Vergo-me ao poder do teu olhar

límpido, cristalino,
do teu sorriso cintilante,
infantil, doce,
das tuas mãos de desenhar
caravelas sem rumo,
rumo a destinos virgens,
com a força redonda
do teu abraço puro,
quente, de ancoradouro.


Esqueço-me das horas
à beira da falésia
do teu promontório
de afagos,
no aconchego dos segredos
que me confias
para que eu te possua
na inóspita distância
dos dias que vierem.


Na imensidão dos momentos
fugazes que me ofereces

esqueço-me até de respirar

e desconfio mesmo

que o coração deixa de bombear

o sangue que me mantém vivo

para me dedicar só e apenas

ao encantamento
de estar contigo.


Quando for e onde quer que vá

tu irás comigo
na saudade e na memória
gravada a fogo
na pele que tocaste,
na mão que me estendeste,

no beijo que selou o nosso adeus,

mas, mais do que tudo e definitivamente,

no brilho radioso
que explode do teu olhar

como girândolo de foguetes

em dia de romaria.


Lembrar-me-ei para a eternidade

do teu sorriso imaculado
e saberei, ao lembrá-lo,
que as portas do paraíso
estarão sempre abertas
no fim de todas as veredas
onde a tua sombra calada
se projectou
desenhando um futuro

de tanto amor e maior perdão.


E porque calar doi
deixa que te diga, agora,

no mais silencioso dos silêncios,

sem usar palavras escusadas

ou desnecessárias ou incapazes

de definir o que quero dizer

que, de todas as mulheres mães,

só tu poderias ser
minha

mãe!


E nem eu sei explicar porquê,

mas é assim que o sinto

e assim quero que o saibas!

 

by Paulo César, em 04/09/09, pelas 20h45

04.09.09

Almofada de palavras


 
Desnudo-me das palavras
breves
e incorporo a essência
das sonoras,
pesadas,
longas,
sorvendo a musicalidade
e o timbre
das suas reentrâncias,
como baías azuis
sob o firmamento
pardo.


Toco-lhes,
sorvo-as,
acaricio-as
e como malabarista
de sonhos
desenho a realidade
que sou
na crueza alvar
das folhas planas.


Espelho-me...

Escancaro portas e postigos...

Dou-me sem regatear
e vibro na emoção
de saber-te perto,
quando o abraço prende,
encadeando hipnoticamente,
o nosso olhar!


Depois deixo que o tempo esqueça

e faço das palavras por dizer

a almofada onde encosto a cabeça

até adormecer!

 

by Paulo César, em 04.Set.2009, pelas 11h30