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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

14.08.09

Férias


Olá...

 

"Ai que prazer não cumprir um dever... " (Fernando Pessoa)

 

Também vou estar por aí, liberto de afazeres com horário...

Vou de férias e só volto dia 1 de Setembro!

 

Não prometo não aparecer até lá, mas não sei se aparecerei...

 

Fiquem bem e... Façam o favor de ser felizes!

 

PC

12.08.09

Incerteza


 

No rasto que ficou depois de ti

nasceu uma sardinheira

vermelha

de perfume intenso,

que eu sorvo compulsivamente,

ao cair da tarde,

até ficar vazio de saudade!

 

Já não sei se me doi

a tua inusitada perda

ou se me anima

o perfume vagaroso

que me espera

a cada regresso...

sem pedir nada em troca!

 

by Paulo César, em 12.AGO.09, pelas 13h00

 

 

10.08.09

Palmas... (e até sempre)


 
Palmas...

De pé...

Em uníssono...

Troando as paredes,

exorcisando a penumbra

da teia,

o colorido do cenário,

a frenética dos camarins,

e alastrando os sentidos

e o sorriso menino

como se pedisses desculpa de ser assim

simples, cordato, grande...

 

Largos sorrisos,

gargalhadas jorrando como luz,

alastrando como epidemia,

cavando fundo uma alegria viva

com esgares de feiticeiro

em palavras sábias,

trejeitos de faz-tudo dum circo novo

com setas certeiras

que não feriam, mas acordavam

do torpor dos tempos,

em gestos de mimetismos

unicos e verdadeiros!

 

A plateia respirava pelas tuas palavras,

sorvia a tua singeleza,

adquiria mimética os modos,

os tiques, o sotaque que imprimias

a cada rábula, a cada sketch, a cada texto

que cravavas na sonolência da amargura

do povo a que te davas nu,

como so tu te sabias e querias dar.

E caído o pano da festa,

o esbanjamento da premente

euforia de estar contigo para te sentir

tal como tu eras, sendo tantos,

 

retornava remoçado ao maquinal

reboliço dos dias cinzentos

gritando à boca de cena,

no palco inolvidável da vida,

num assomo de coragem

de que tu e só tu és culpado

(e nisso e só nisso foste, és e serás empre réu):

 

Raul, obrigado por nos teres feito felizes!

 

by Paulo César, em 10.Ago.2009, pelas 17h30

 

 

04.08.09

Premonição


 
"Bem aventurados os puros de coração,
Porque verão a face de Deus..."
 
(uma das nove Bem-Aventuranças do Sermão da Montanha)
* * * * * * * * * * * * * * *
 
Se a luz pequenina,

que ainda me enche o olhar,

o coração e o horizonte,
vacilar

ante uma rajada de vento forte,

talvez seja o rugir da morte

arrastando os passos pesados

de besta viperina.


E porque o medo atroz
me tolda o discernimento
e me estrangula a voz
para gritar por socorro,

sei que de nada valerá rogar,

no silêncio da alma,
uma prece sentida
no derradeiro momento.


Olharei altivo a negra Tânatos

e tomando a estrada do infinito

partirei demente
a burcar-me ainda
por entre os fios soltos
da estridência do grito
que lançarei ingente

a convocar o sonho que não finda.


Que, morto o corpo, o homem sobra

na proporção da grandeza

do seu carácter e da firmeza

da vertical tecitura da sua obra!

 

by Paulo César, em 04.AGO.2009, pelas 19h30

 

04.08.09

Dádiva


 

Não me dês apenas

a beleza serena do teu olhar,

ou o carinho sem medida

do teu abraço envolvente,

ou a doçura impiedosa

do teu beijo fugidio!

 

Dá-me o segredo

guardado nos teus silêncios

desérticos,

a paz cristalina

das tuas ausências

introspectivas,

a fragância paradisíaca

das tuas palavras

sensatas!

 

Ensina-me a ser

o pastor das tempestades,

das marés vivas,

da ventania ribombante...

o domador da escuridão,

do medo e da vertigem...

o curador das dúvidas,

das interrogações repetidas,

dos ses e dos mas de cada instante!

 

Mostra-me o caminho da luz,

dos dias que nascem de noites enluaradas,

das horas que se sucedem

e se somam a tempos de busca,

quando o espanto se posta no olhar

escancarado e abre de par em par

as portadas do futuro,

com sorrisos especados

em lábios de mil sois e campos

floridos.

 

Deixa que tome o bordão a que te amparas,

para com ele subir ao cume

extenuante do teu corpo

e à profunda quietude da tua alma.

Deixa que prove da tua seiva vivificante

e, na dádiva do teu âmago genuino,

saiba concretizar a viagem sem regresso

ao lago do infinito,

onde mora a aurora boreal

do teu sorriso sem igual.

 

by Paulo César, em 04.AGO.2009, pelas 11h15

 

03.08.09

Jogo de espelhos


 

No plano, a imagem

Desconstroi a imagem

E mostra, olhos nos olhos,

As rugas do tempo,

Os sulcos do esforço,

As cãs, como erupções

De cansaço,

De dor,

De desespero lento,

De ausência...


A pele gretada, rugosa

Como casca,

É o mapa da vida

Sinuosa

Que transporta no âmago

E que silencia para gritar

Mais alto

Quando já ninguém

Quer ouvir.


Os braços são ramos velhos,

As pernas troncos ocos

E a seiva, à míngua de respeito,

Corre como se marchasse apenas

Ao encontro dum ponto

Neutro e abstracto,

No lugar mais distante

E tão próximo

- Vizinho a quem não se fala,

que não se quer conhecer,

mas que todos os dias se cruza

na escada

e sobe no elevador -

A morte!


E um dia, ao olhar o espelho baço,

A imagem surge clara e cristalina,

Com um sorriso largo e pueril

E os braços abertos,

Como se convidasse à ternura,

E vagarosamente

Transpomos o lado físico

E lançamo-nos à aventura

Da descoberta do outro lado

Da película prateada

Onde tudo se reflecte

E nada adere

Para sempre.


Para sempre é

Uma medida sem tamanho

Que não ousamos

Levar a sério

E no entanto

Esse tempo virá

E nele descansaremos enfim,

Para sempre,

Sem metáforas

Ou ocasionais jogos de espelhos.

 

by Paulo César, em 06.Dez.2006, pelas 08h30