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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

07.06.09

Urdidura de palavras


 

Vagos passos me levam
De volta
Ao dealbar da aurora!
Outrora
Foi o tempo que ganhou lastro
Entre partir e voltar.
 
Hercúlea é a jornada
E de longe em longe
Meço a altura do sol
Na perpendicular do meio-dia
E calculo a bissectriz da saudade
No trilho seguro da memória.
 
Uno as pontas soltas,
Dispersas, quase perdidas,
E refaço o novelo das palavras
E dos gestos ausentes,
A recuperar imagens a três dimensões,
Com sons e odores que foram
Sujeito, predicado e complemento
Directo
Dum ambiente concreto.
 
E, sabendo que não consigo,
Teimo atingir o âmago da questão,
Porque só assim sei ser
Quem demonstro ser,
Sendo simplesmente.
 
 
by Paulo César, em 28.Jul.2008, pelas 23h45
07.06.09

Memórias da memória


 

Nas lodosas manhãs
Acordo da clausura
Da diáspora
E lanço âncora
Ao rés da maré vasa,
Quando a lua se despede
Com um beijo
E o sol se ergue
Majestoso
Nos escaparates do oriente.
 
Vagueio entre mudo e nu
Ao encontro das palavras
Estremunhadas e famintas
E descubro na água corrente
Temperada do duche matinal
As fragrâncias aferrolhadas
Dos campos que já não são,
Dos tempos que já foram,
Da vida que passou por aqui
E deixou marcas e marcos
Que dividem em talhões
E parcelas
O antes, o agora e o depois.
 
E uma melodia repetitiva
Invade-me por dentro e por fora
Impelindo-me a trautear
Maquinal e desajeitadamente
Palavras que arrastam memórias
E memórias que devolvem momentos
Tão presentes como se fossem novos,
Tão vivos como se fossem outros,
Sendo aqueles que já foram.
 
Há odores que sobressaiem
Das imagens dos sonhos;
Há cores que se sobrepõem
Ao colorido dos dias;
Há pessoas que retomam os seus lugares
Em cenários surreais,
Assumindo o protagonismo
Que o tempo fez esmorecer.
 
E no entanto o que já não é
Ainda continua a ser,
Quando nas lodosas manhãs
Acordo da clausura
Da diáspora
Para me assumir por inteiro
Actor duma peça em capítulos,
Cujas palavras esdrúxulas
Se perfilam imponentes,
Sem autoria definida…
 
Basta ser
E o mais é por si mesmo!
 
 
by Paulo César, em 14.Jul.2008, pelas 23h00
06.06.09

H I N O


 

Quando, para escrever amor,
Tiver esquecido as palavras,
Lembrar-me-ei do teu nome
E, no vagar das horas,
Trilharei veredas de memória,
Até esculpir o esboço do teu corpo
E a aura do teu olhar,
Que acenderão em mim
O murmúrio do silêncio
E o caudal dos beijos…
 
Naturalmente
Construirei um hino
Imortal!
 
by Paulo César, em 06.Jun.2009, pelas 19h30
05.06.09

Infindável busca


  

Se fores à minha procura
E não encontrares o homem,
Busca nas palavras escritas
O caminho que há-de levar
Ao pássaro
Em cujas asas me liberto
Para ensaiar voos sem destino.
 
Se chamares por mim
E a resposta surgir na ressonância
Do eco côncavo, gutural,
Levanta os olhos ao céu,
Abre os braços de par em par
E abraça a vaguidão
Com a insolência dum louco!
 
Mesmo que não me encontres
- matéria corporal palpável,
dimensão e geografia -
acharás a volátil fragrância
que semeei por aí
em folhas nuas, em papeis crus,
carregados de dúvidas e interrogações.
 
O que sou e o que fui
Derramei em avalanches
De palavras inúteis
A que chamei poesias,
Que as gavetas fechadas
Guardam dedicada e fielmente!
 
by Paulo César, em 02.Mar.2009, pelas 23h00
05.06.09

Apelo da terra


 

Chamam-me os luares, as ventanias,
O coachar das rãs, o chiar das noras,
O canto dos ranchos na faina dos dias,
O repicar dos sinos ao cair das horas.
 
Chamam-me o odor a feno e a trigo loiro,
O frescor das águas alagando as hortas,
O vivo das papoilas e o verde dos prados,
Das memórias vivas de tantas vidas mortas.
 
Chamam-me os silêncios ao redor do fogo
- que a lareira acesa a todos congregava -
As histórias simples com nacos de gente
Em palavras nuas de tanto e de nada.
 
Chamam-me de longe o que nunca foi
Para além de mim mais do que um passo nu.
Chamam-me… e só oiço, porque ainda dói,
Ouvir alguém tratar-me por tu!
 
E a terra que fui é a terra que sou,
Que só terra pode ser quem da terra veio…
E meu corpo de gente cresceu e sonhou
Ser da terra pó, voltar ao seu seio!
 
Campo e mais campo foi meu elemento,
Terra e mais terra foi minha raiz
E é deles que eu sinto febril chamamento,
Dizendo, gritando: Anda ser feliz!
 
 
by Paulo César, em 18.Jan.2009, pelas 22h00
05.06.09

...


 

A marca dos teus dedos
Percorre o torvelinho da minha pele…
Que planaltos se erguem
Depois da concavidade do teu colo?
 
Acaso o teu olhar é o espelho
Das sombras fantasmáticas
Que circundam as raias
Do meu medo e da minha angústia?
 
Clamoroso é o grito que abafo,
Enquanto finjo uma calma sem abrigo,
Que vagabundeia pelas avenidas largas
Do desassossego sem tamanho.
 
O que calo quando me calo
Não é segredo ou intimidade,
É o arrepio que explode
Na redonda macieza do teu toque
Quase satânico,
Quase deificante!
 
 
by Paulo César, em 28.Julho.2008, pelas 23h30
05.06.09

Voo suave


 

Voo suave…
Interlúdio de memória e sonho,
Desabafo que alastra na clareira
Dum passado vagaroso,
Passos que marcam indeléveis
Esboços de futuro,
Sonoras gargalhadas que rasgam
Barreiras de medo
E libertam fantasmas sem nome
E sem aura.
 
Dormente o olhar vagueia
Em busca da outra margem
Como se construísse a ponte que falta
Para o beijo ou o abraço.
 
O que vem depois é a parte
Que resta da sincopada cadência
Da teimosa vontade de ir longe,
Ainda que o tempo se esgote
No sopro da aragem fria,
Ainda que a jornada termine
No dobrar da esquina redonda,
O dorso das vagas traz o rumor
Da aventura na ladainha das marés.
 
Só a gaivota sabe a lonjura
Do horizonte
Quando a praia fica deserta!
É então que o voo se solta
No torvelinho da rebentação…
 
 
by Paulo César, em 27.Out.2008, pelas 23h30

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