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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

05.07.08

Do chão e da alma


 

Há no ar uma magia

desconcertante

e a luz tem o sabor

impregnado das amoras silvestres,

como se fora lua cheia

e os pirilampos ziguezagueassem

ao encontro do sonho

nos penhascos da via-láctea.

 

Sinto-me cheio da vontade

de ir na direcção do acaso

a colher marmequeres campestres

e papoilas rubras de desejo

ouvindo o coachar de rãs preguiçosas

ou o zumbido de abelhas ladinas

no silêncio de sombras vivas

à beira de caminhos feitos de passos imponderáveis.

 

Sento-me onde me sinto cansado

e retomo a marcha quando me chamam os pássaros

ou quando os latidos agudos dos cães vigilantes

demarcam o espaço entre o possível e o ímpossível.

Quando me deito é porque a noite me abraça

e envolto na sinfonia maniqueista dos ralos notívagos

dou de caras com a matemática da vida

e enceto a aprendizagem duma tabuada informal.

 

Somo parcelas imprevisíveis de vontade,

subtraio arremedos de decisão,

multiplico por ansiedade a demência do tempo gasto

e divido em partes iguais o que não é divisível.

E o que sobra, se acaso sobra,

não é resto nem quinhão,

é um conjunto de nada e vazio

que preenche tudo o que sou

até transbordar pelos poros cavados

na rudeza da pele gretada

como sulcos de arado no campo em pousio

onde não crescem nem cardos nem girassois,

nem hortênsias ou morangos,

mas germina libertinamente

a erva alta que ao longe parece seara

e ondeia como seara

 e cresce, e vive, e amadurece como seara

que não é, mas parece ser.

 

Inspiro fundo a bsorver os odores todos

que enchem o espaço, do local ao infinito,

até ficar zonzo da plenitude das fragâncias.

E adormeço sem a noção do sono ou do sonho

esbugalhando o olhar para me perder no horizonte

e mergulhar na vida viva que se alimenta

do sol e do mar, da noite e do dia,

e de mim!

 

É então que caminhando acordo de estar acordado

e busco no espaço em redor

a origem dum arrulhar inconfundível...

No cimo dum ramo seco que foi pinheiro,

ou azinheira, ou sobreiro, ou o que tiver sido,

uma rola breve cumprimenta-me de passagem

dizendo-me na sua linguagem de ave que eu reconheço:

- Cucurru... Cucurru... Curru...

 

É nesse momento que os olhos ficam marejados

e, seguindo embora, os passos já não vão,

ficam ali, entre o caminho e o destino,

a saborear o momento único e a viver o encontro

de mim com o que resta de mim

enquanto a rola se eleva no ar

como se desfraldasse o lenço branco do adeus

e batendo as asas frágeis escrevesse a mensagem

que não consigo dizer por mim mesmo:

- Obrigado!

 

by Paulo César, em 30.Junho.2008, pelas 22h30

 

03.07.08

Adeus...


 

 

Na hora do adeus

o estrondo das lágrimas

ofusca a grandeza dos gestos

simples,

a mão que afaga a pele,

o beijo que lambe a face rubra,

a força do abraço que estreita os corpos

e transfega o amor.

 

De resto o ar oprime,

o espaço esfuma-se,

o horizonte perde-se,

os olhos cegam na hora do adeus

incapazes de sarar

a dor caudalosa.

 

É então que a saudade

nasce

e faz rebentar as águas

duma prenhez que ao invés

de dar à luz

abre a caverna da escuridão

até se exaurir em dias

e dias sem tamanho.

 

by Paulo César, em 27.Maio.2008, pelas 20h40

01.07.08

Augúrio


 

 

Quando no vagar das horas intemporais

Acordar em mim a vontade de ir mais além

Deixem que eu seja diferente e porém

Um homem igual entre os meus iguais.

 

Não me coloquem abissais

Obstáculos que me impeçam de ser quem

Eu quero, nem me levem, entre o mal e o bem,

A fazer escolhas colossais.

 

Meu coração saberá ser o juiz

Dessa causa de dúvida e tormento

Sem arroubos de sábio ou o espavento

 

De quem se julga um ser superior.

Que eu saiba ser grande no amor

É quanto peço! E serei feliz!

 

 

by Paulo César, em 01.Julho.2008, pelas 19h00