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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

25.04.07

Carta aberta para um capitão de Abril



Caro amigo, companheiro, camarada! Estimado Capitão de Abril!



Que importa a forma como te cumprimento, se quero mesmo é dizer-te: olá!

Dizer-te que estou aqui a recordar os dias quentes, daquela Primavera de cores inimagináveis, como se de uma autêntica paleta de mestre se tratasse, e a pensar comigo, em surdina, que ainda não fomos capazes de te agradecer, como tu mereces que te agradeçamos.

De facto, no frenesim da descoberta, na pressa da magia, no envolvimento dos acontecimentos diários, contínuos,  ingentes, acabámos por dar como adquirido que a "Liberdade estava a passar por aqui" e ia ficar, que "o povo é quem mais ordena" e seria capaz de arregaçar as mangas, que em "Maio, maduro Maio" outro seria o tempo e melhor o espaço e em uníssono haveriamos de alcançar o sonho.

Perdoa-nos, arquitecto da nossa Democracia, do nosso Desenvolvimento e da nossa Descolonização, o nosso esquecimento colectivo. Devemos-te o empenho, a entrega, a ousadia, a aventura da Liberdade!

Hoje falamos muito, de tudo, sem peias, sem medos, sem fantasmas ou ouvidos algozes nos cantos, as esquinas, na sombra insidiosa. Exprimimos os nossos credos e as nossas indiossicrasias. Chegamos a ser cruéis com a liberdade de que gozamos!
Estamos a criar o hábito medonho e feio do bota-abaixo! Apontamos o dedo, avaliamos as atitudes alheias, gizamos ideias, concebemos tácticas e estratégias, mas quedamo-nos na conveniente atitude de esperar que aconteça, que alguém faça, que alguém dê o mote, para voltarmos a ser críticos, carrascos, algozes da disponibiliddade, do desassombro, do voluntarismo.

A nossa pequenez agiganta-se! O nosso provincianismo assusta-me! Eça e Ramalho tinham razão nas suas destemidas "Farpas"!

Por isso, estimado Capitão, aproveito esta data para te dizer clara e frontalmente:
        OBRIGADO!

Precisamos cada vez mais da tua coragem, do teu destemor, do teu desapego ao poder, da tua simplicidade de gente boa!

Será que perdemos a capacidade de ser um povo de arrojados empreendimentos?
Será que já demos todos os mundos ao mundo?
Acaso seremos nós, na terra luminosa da "Ocidental Praia Lusitana" os "vencidos da vida"?

Estimado Capitão de Abril, ainda sinto o eco das vozes em coro gritando, a plenos pulmões, que o "Povo unido jamais será vencido"! Ainda ressoa nos meus tímpanos a cantata sublime da "Grândola, vila morena"! Ainda tremo ao ouvir o som da marcha que antecedia a leitura dos comunicados do MFA, religiosamente escutados nos rádios de pilhas que enxamearam todos os cantos do nosso país naquele dia 25, de sol!

Hoje, mais velhos e mais calejados, já não nos movem sonhos impossíveis, mas continuam vivas e presentes as ideias de transformação, tendo por objectivo uma maior equidade na distribuição da riqueza, uma educação de qualidade, uma saúde para todos, uma justiça que o seja sem subterfúgios, num país onde os portugueses sejam pessoas de bem, abertos ao mundo, à paz, ao desenvolvimento e ao progresso.

Não deixei de acreditar! Mas precisamos cada vez mais de braços para dar corpo à obra!
Vamos conseguir? Fica a interrogação...

Deixo-te um abraço fortissimo de gratidão! Bem hajas!
Acredita que te estimamos, amigo, companheiro, camarada!
Acredita que não esquecemos o teu gesto nobre, estimado Capitão de Abril!


by Paulo César, em 25 de Abril de 2007
à memória de Salgueiro Maia, português, capitão e homem
 
25.04.07

Tanto futuro





Foram tantos braços ao alto,
tantas mãos fazendo V,
tantas gargantas abertas
lançando gritos ao céu.

Tantos olhos rasos, rasos,
duma alegria incontida,
tantos passos sem canseira
no trilho novo da vida.

Tantas cantigas cantadas
como um clamor de vitória,
tantas ruas, tantas estradas
que nos levaram à glória.

Tantos medos que ficaram
pelas esquinas libertas,
tantas portas aferrolhadas
que passaram a estar abertas.

Tantas palavras nascidas
do novo tempo de ser
português de corpo e alma
neste país  a renascer.

Tantos dias  que nasceram
depois de noites e dias
em que tudo aconteceu
numa sucessão de magias

Tantos sonhos, doces, doces,
como se sonhar já fosse
uma nova forma de estar...

Tanto futuro a brotar
das vontades, das ideias,
que as ruas andavam cheias

desses futuros audazes...
E passados que foram os anos
será que fomos capazes
de evitar novos enganos?

by Paulo César, em 25.Abril.2007, pelas 20h00

24.04.07

Apelo...




 (Velha imagem... Eterna mensagem)


Salvai os cravos,

As rosas, os malmequeres,

As papoilas…

Salvai os sorrisos, os abraços,

A alegria, a esperança…

Salvai os projectos de futuro,

A vontade de vencer…

Não deixeis fechar as portas,

Trancar as janelas,

Construir muros…

Evitai ódios, zangas,

Desatinos, mal querer…

 

Semeai estradas de horizontes

Infindáveis…

Planeai futuros de mar largo

E vasto oceano…

Inventai cantigas de embalar

O sonho…

E concretizai-o!

 

Vós… Esses de vós que sois

Jovens

E tendes força e vontade

e entendeis a linguagem dos afectos

e buscais o amanhã no final de cada dia

(como se cada dia fosse o princípio e não o fim)

e perscrutais no silêncio o alvor

e a madrugada

e aspergis de luz os becos e as sombras

e tendes sede e fome de gente

com coluna vertebral e mente aberta

e discutis o senso e o absurdo das coisas

e cresceis onde crescem os que querem crescer…

 

Vós, os que sois de entre nós,

A geração da teimosia,

Do inconformismo,

Da rebeldia,

Da cidadania e do amanhã,

Tomai o ceptro e reinai:

É vosso o futuro!

Amai a liberdade!

 

Porque Abril não foi uma miragem!

Abril foi o oásis dum encontro adiado

Para uma data com história:

Grândola! Portugal! Vinte e Cinco!

Sempre!


by Paulo César, em 24.Abril.2007, pelas 22h00

22.04.07

Sete pedras raras



Tenho sete pedras raras

Num bolso cheio de nada,

Todas belas, todas caras…

Tendo sete pedras raras

Não me furto à caminhada!

 

Cada pedra tem seu toque,

Cada uma tem seu som

E ao tocá-las sinto um choque…

Pois se cada uma tem seu toque

Livre é o mundo! Livre e bom…

 

Sete pedras que são minhas.

Sete e sete, quantas são?

Sete escravas ou rainhas…

Todas as sete são minhas

E adornam-me o coração!

 

 

by Paulo César, em 09.Ago.2005, pelas 22h50

20.04.07

Contra corrente





Contra a corrente vou...

Teimoso e obstinado quero ir
ainda que o cansaço tente derrotar
o esforço de conseguir...

Não há força que arraste a vontade
de querer chegar...
Não há poder que detenha a garra
de tentar, de porfiar...

Contra a corrente vou...
Formiga em contraciclo...
Quase osmose, quase só ideia!
Mas firme! Mas decidido!
Mas... autêntico!

by Paulo César, em 20.Abril.2007, pelas 23h00
15.04.07

Elegia para um corpo nu





O teu colo sabe-me a água fresca
como se tu fosses a fonte
secreta
que mata  a minha sede!

Nos teus olhos vejo
todo o futuro por acontecer
como se neles florescesse
o tempo e o espaço!

Pelas tuas mãos vou
onde me levar a fantasia
para descobrir caminhos novos
no outro lado de mim!

Dos teus lábios escorre
a fragância do alecrim
quando os teus beijos encontram
os meus na entrega sem tréguas!

No teu corpo todo,
liberto e incandescente,
encontro a paz e o desassossego
e vivo intensamente cada minuto!

Onde for quero que venhas!
Jamais darei à saudade a primazia
porque é do teu corpo nu
que explode a força que me alimenta!

by Paulo César, em 15.Abril.07, pelas 17h30
11.04.07

Da minha janela




 

Da minha janela eu vejo mais

do que vejo quando olho

para tentar ver...

Vejo os cumes altos...

Vejo os vales fundos...

Vejo as nuvens em vagas

que vogam ao sabor do vento...

Vejo os teus passos apressados

na pressa de chegar...

Vejo o pássaro louco

planar na corrente suave

e cair a pique como se desmaiasse...

Vejo a lua redonda encher-se de luz

e plantar-se vaidosa no meio

da Via Láctea...

Vejo, no horizonte, o céu beijar

a terra, num beijo conspícuo,

como se quisesse esconder o amor...

Vejo um rio imóvel correr para um mar

que eu sei estar na confluencia da foz,

junto à rebentação, na entrada da barra...

Vejo um formigueiro de gente...

Vejo um barquito ondulante no dorso das ondas...

Vejo telhados, janelas, ruas, automóveis, bulício...

Vejo gente como eu a olhar para ver,

do alto das suas janelas abertas,

o mundo que se agita convulsivo lá fora...



Da minha janela aberta,

de par em par,

eu consigo alcançar o torvelinho

dos meus sonhos

e com os olhos bem abertos

adormecer no encanto de ver

como é belo o mundo visto,

com olhos de ver,

do alto da minha janela.

 

by Paulo César, em 11.Abril.2007, pelas 21h50

 

 

09.04.07

Procura-me




Procura-me como se procurasses no escuro...

Tateia... Palpa o negro que te envolve e sente
o vazio, o oco, o indizível...

Procura-me na claridade da aurora matinal...
Naquele raio único que brota por detrás daquela núvem
fantasmagórica, opaca, disforme
e mergulha no alvor como se fosses renascer.



Procura-me no silêncio dum caminho sem destino,
à sombra de um cipreste esguio,
no chão quente onde o formigueiro se afadiga
enquanto a cigarra desgarra um grito
que enche o ar irrespirável dum coro estridente
quando o verão vem tisnar e colorir de castanho oiro
o horizonte que se espraia na planura e na distância.

Procura-me nos teus olhos que me olharam fixamente!
Eu estarei lá, imagem que guardaste e que revelas
quando a memória despertar
e tu acordares para a saudade.

Procura-me no sabor lascivo dos teus lábios,
na reentrância profunda das tuas coxas,
na macieza suave da tua púbis,
na força avassaladora dos teus braços,
no extase submisso do orgasmo...

Procura-me no sabor amargo duma lágrima orfã
que veio lavrar um risco incerto
na tua face sofrida...

Ou no braço levantado que acena um adeus
ou na palma da mão aberta por onde desliza
um beijo lançado no sopro suave que corre ao teu encontro
e que te ajudará a suportar a despedida
até ao dia do reencontro.



Procura-me...
Mesmo que não me encontres eu estarei lá!


by Paulo César, em 09.Abril.2007, pelas 22h45
02.04.07

Odor a mar, sabor a sal...


Deixei-me adormecer!

Ó areias da praia deserta
que farei com este corpo ausente?



O mar veio beijar-me os pés nus...
Uma nuvem de gaivotas sobrevoou,
gritando, a minha ausência adormecida.
Não despertei!
Sonhava com um adamastor
perfilado na escarpa,
hirsuto gentio cuja voz reverbera
nos confins do meu sono desbragado,
ainda.

O sol apressou-se no seu ocaso,
deixou-me silenciosamente só
no dorso frio do areal adormecido,
como um naufrago da maré vasa.



A aragem soprou mais áspera!
As gaivotas, em bando, retornaram
à origem, apontando a sul.
O meu corpo ausente despertou
para a noite nascitura.

Naquele dia eu soube o odor cru a mar
e o sabor acre a sal
da maresia da beira praia.
A lua veio prenhe de luz
e empoleirou-se no lugar do adamastor
mais acima, um pouco mais,
no cocuruto do penhasco.

Meus passos foram além,
muito além de mim,
por caminhos ínvios,
por carreiros abruptos,
por estradas sem destino.

Nesse dia, que a noite abraçou,
eu vivi sem pressa...
até que adormeci de novo,
num lastro de lençóis lavados
com sonhos por realizar.

by Paulo César, em 02.Abr.2007, pelas 19h4
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01.04.07

Quase grito!





Ó dor vai-te embora,
deixa-me em paz, em sossego,
deixa que eu adormeça
e não venhas incendiar
de pesadelos e sonhos sombrios
a noite silenciosa do meu abandono.

Não me obrigues a ficar mudo
enquanto se revoltam as minha entranhas
em milhentas imprecações de angústia,
de solitária vontade de fugir,
de ir pelos campos a colher
a paz dos dias calmos
em flores de cores sibilantes.

Não! Vai por onde te possam
aceitar e invade quem te queira
bem. Deixa-me só, comigo mesmo,
a embriagar-me de vida
e a afogar-me de futuro,
envolto nas manhãs ensolaradas
do tempo primaveril com chilreios
e odores campestres.



Vai! Vai de mim!
Deixa que eu redescubra o sorriso
e plante centelhas de alegria
nas bermas dos caminhos,
das azinhagas, dos carreiros...
Deixa que eu retorne a mim,
para ser de novo eu, apenas eu,
sentado à espera da noite amiga
para adormecer sem azedume
e sonhar com estrelas cadentes
e lagos de águas calmas
onde peixes coloridos se espreguiçam
sem pressa de viver.

Vai!
Deixa que eu seja um homem
comum!

by Paulo César, em 01.Abr.2007, pelas 15h00