Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

25.02.07

Ganhos e perdas





O ganho de perder-te

é saber que não te perco,
porque perder-te
é perder a memória,
é esquecer o passado,
é enterrar o que fomos
um dia, uma hora, um minuto,
o que tenha sido,
fugaz e louco,
ou simplesmente
indizível.

Perder-te
significa perder-me,
abalar de mim em busca
de outro eu, outro ser,
outro homem novo no velho
que sou
e tomar um rumo, um norte,
um caminho impossível
de cruzar-se comigo, este,
e contigo, essa,
que um dia se cruzou
no ponto certo da vida
onde ocorrem encontros
impossíveis
de esquecer.

Perder-te é tão difícil
como amar-te...

E eu sei que dificilmente
vou deixar de te amar!


by Paulo César, em 25.Fev.2007, pelas 17h40
17.02.07

Aos amigos





Não quero choros, nem ais,

nada mais
quero de vós
do que um sorriso rasgado
e um olhar cintilante
onde a alegria impere

quero ouvir as vossas vozes
a contar mil coisas tontas
daquelas que fizemos juntos
quando a vida nos impelia
à loucura de viver

quero sentir que vos amais
no amor que nos uniu
na vontade que cingiu
nossos seres de gente boa
em busca do sonho novo
que sempre acanlentámos
mesmo quando já não sonhámos
e nos limitámos a ser
sonhadores do tempo ido.

Não quero saber que vencidos
vos destes ao abandono
de adormecer e pelo sono
não dar pelo tempo passar.

Quero-vos ainda e sempre
meus amigos,
a arrostar com os perigos
e a vencer a modorra
que um homem só o pode ser
quando mantém a porfia
e vai pela noite fria
em busca do sol radioso
que transforma a noite em dia.

by Paulo César, em 17.Fev.2007, pelas 16h45
17.02.07

Desejo de morte





Quando a morte vier

que venha devagar,
silenciosa,
insinuante,
na força duma bala,
no gume duma faca,
no nó duma corda,
no estrondo de uma queda,
numa sincope indolor,
ou como quer que seja...

Quando a morte vier
que eu esteja preparado
para a receber
e com ela beber um copo,
trocar uma conversa amena,
dançar uma valsa lenta
ou um tango fugaz.

Quando a morte vier
que seja dia,
sol vivo e a pino,
 luz vibrante e envolvente,
tempo de flores
e muita água nos rios.



Que haja pardais no arvoredo
e andorinhas nos beirados,
gente apressada nas ruas
e sons de música num rádio
incansável
donde brote alegria a rodos.

Quando a morte vier
que eu saiba da vida
tudo o que devesse saber
e que nada nem ninguém
chore a minha partida
mesmo sem querer.



Quando a morte vier
que venha bonita,
cheirosa,
requintada,
sorridente,
quiçá sexy...

É assim que deve ser
quando a minha morte vier!

by Paulo César, em 17.Fev.2007, pelas 16h15
04.02.07

A Palavra e a Escrita



Incerta a palavra escorre...
Vertida no papel a tinta seca...
A ideia povoa a mente e solta-se
Libertina e indelével
Para semear tertúlias
Na imensidão...



E dita assim
A palavra já não é minha
É, por si mesma,
Ideia e Matéria,
Razão e Vontade,
Princípio e Fim,
Alpha e Ómega,
Tudo e Nada,
Natureza que intui
E se transforma
E transforma o que toca.

No branco alastra a vertigem
E a soma de letras miudas
Multiplica-se nas palavras
Em que se dividem as ideias
Que se subtraiem à sucapa
Para um poema, outro,
Que escrevo com o intento
De lançar  como  grito
Ou slogan.

As linhas tornam-se  sinuosas...
O espaço claustrofóbico...
E fio condutor esvai-se...
Por  fim o braço pára
E tanto ficou por escrever!


by Paulo César, em 04.Fev.2007, 17h15
04.02.07

Quadras a murro





Pouco, muito pouco,
Tão pouco, embora,
O eco soa a soco
E não demora.

Da boca, como um louco,
À pressa, agora,
O grito salta rouco
E apavora.

Medra nos sentidos o clamor
De gestos inventados,
Que se perdem no pavor
De momentos passados.

Investe o tempo a ira
No lusco-fusco cinzento
Das tardes pardas. A lira
Acorda o medo macilento...

Que cobre como névoa o dia
Todo e tudo à volta
Como se fosse escura e fria
A luz que se solta.


by Paulo César, em 2005...

04.02.07

Abstracção e palavras





Misógina
A imagem conduz
A lugar nenhum!

Abstacto
O silêncio decifra
O tamanho do caos!

Mil olhos
Vagueiam no mofo
Do tempo desgastado
Em busca do humus
Do sonho
Como se a Via Láctea
Levasse ao Paraíso!

Na aspereza das horas
Mortas
Decomponho contrito
Os fiapos de tempo
Que nascem no âmago
Das coisas que se moldam
Entre mãos de feiticeiro
E truques de mágica
Sem mestre!



As estrelas cadentes
Tingem de luz repentina
E vertiginosa
As estradas de Santiago!

No voo dos morcegos
Deambulam os fantasmas
Nocturnos
Da alegoria
Da vida!

Lamparinas de azeite,
Já extintas,
Atraiem as borboletas
Do lusco-fusco,
Em voos sem retorno!

Penso-me na abstracção
Das palavras,
Na irrazoabilidade
Dos sentimentos,
No mistério de ser
Ainda e sempre!


by Paulo César, em 23.Dez.2005, às 04h45 (T. Towers)
04.02.07

Quase sonho...




Esta noite ouvi o teu corpo
Respirar
Devagar!

Nos lábios sedentos
Nasceu, à flor da água,
Um nenúfar de folhas viçosas
Com uma corola no centro...
Batia um coração no teu olhar,
Cálido e fulminante,
A marcar o ritmo do tempo e o espaço,
Na sincopada cadência
Do desejo e da saudade.

Amei-te nos lençois
Lavados da sofreguidão
E adormecemos nos braços
Do cansaço
Com sonhos coloridos
A crescer no aconchego
Dos nossos corpos unidos!



Esta noite ouvi o teu corpo
E ganhei asas!
Asas de espanto
No delírio do espasmo,
Quando o coração parece
Saltar do tórax
E ir sem destino
Gritar a quem passa:

AMO-TE!


by Paulo César, em 01.Dez.2005, pelas 04h50 (T.Towers)