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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

20.01.07

Murmúrio





Poiso no teu corpo
Os olhos da noite,
Devagar,
Silenciosamente.

Vagamente mergulho
Na memória de ti
Percorrendo cada curva,
Cada saliência,
Cada pedaço de pele,
Como se rasgasse
O horizonte
Até ao infinito.

Invado a saudade
Do tempo perdido
Como se penetrasse anónimo
O segredo inviolado
Do teu olhar
E por ele atingisse
A perfeição
Ou o Éden!

Escravo da ausência
Dependo do teu halo,
Da tua sombra,
Do eco fantasmático
Que ressoa no absurdo
De presentir-te onde não estás,
Onde não podes estar.

O teu retrato, em contraluz,  tolda
O ambiente onde me aninho
E por ele me ligo a ti,
Qual cordão umbilical
Inquebrável.

E no entanto há uma distância
Que jamais encurtaremos
Pois ambos sabemos
Que a dor do murmúrio
Permanecerá
Inalterada e firme
Para nos fazer amantes
Um dia após outro dia
Até ao fim dos nossos dias!

by Paulo César, em 19.Jan.2007, às 23h45
15.01.07

Maria...



Só sei o teu nome...
Teu nome, mais nada!
E um breve relance de ti
Numa página branca
Virtual
Dizendo-me coisas enormes
Com uma cadência sincopada
De amiga
Que surgiu da globalização
E da sensibilidade.

Mas não conhecer-te,
Maria,
É já conhecer,
Porque ambos conhecemos Sérgio,
Zeca, Zé Mário e de certeza
Abril e Maio,
E foi tão bonita a festa pá...



E neste pedaço de chão,
Poema à beira mar plantado,
Cidade a ponto luz bordada,
Somos mais, muito mais,
LES UNS ET LES AUTRES,
Mon inconu ami!

14.01.07

Insónia




A coberto da noite

Planto sonhos
E quando o dia nasce
Colho os frutos
Proibidos
Da árvore da sabedoria.

O meu pecado original
Foi amar mais do que pode
A força humana
E fustigar a fome
Com beijos,
Com abraços,
Com carinhos
E silêncios nús,
Prenhes de encantamento.

Pendurei (penduro ainda)
Nas estrelas gritos mudos,
Chamamentos lancinantes,
Recados tresloucados
Como SOS de naufrago
Que vogam ausentes
No dorso das vagas,
Até que uma rede os recolha
Como peixes do espaço,
Mortos no maremoto da saudade!



De noite turvam-se-me os olhos
Ao olhar-te nos olhos
Com olhos de amar...
Jamais saberei de mim
Se não souber de ti
E se de ti não souber
Um pouco mais,
Meu amor!

by Paulo César, em 14.Jan.2007, às 00h15
13.01.07

Não sei amar-te


Não sei amar-te depois do amor...



Prosto-me no silêncio e deambulo
pelo prazer de sentir prazer,
de sentir o corpo exausto,
arfante,
distendido,
saciado,
e vogo como grânulo de pólen
que se liberta e vai
sem destino
em busco do lugar certo
da fertilização.



Não sei amar-te depois do amor...
Sei apenas ficar a teu lado
para voltar a amar
noutra noite, noutro dia, noutro lugar,
quando os nossos corpos pedirem tréguas
e as nossas líbidos exigirem
sexo!

by Paulo César, em 12.Jan.2006
05.01.07

Os Reis Magos




Vamos pôr luz onde existir sombra...
Levar paz onde houver guerra...
Deixar pão onde sobejar fome...
Plantar alegria onde morar a angústia...
Agasalhar com roupa quente quem tiritar de frio...
Ensinar a ler a quem nunca foi à escola...
Mostrar a vida a quem só conhece a morte,
e a dor,
e o sofrimento,
e a raiva,
e o ódio,
e o desespero,
e o abandono,
e a marginalização,
e jamais teve sonhos,
ou brinquedos,
ou família,
ou amigos,
ou país,
ou Deus!

Vamos, como Reis Magos,
Sem medo do caminho,
Abandonados a nós mesmos
E confiantes
Que a estrela nos guiará até Belém!



Belém será em todos os lugares
Onde existir alguém nascido
Carente,
Necessitado,
Sofredor,
Abandonado,
Doente,
Explorado,
Analfabeto,
Nú de afecto,
Esfomeado de carinho,
Sedento de amor,
Ansioso por ser ouvido,
Agrilhoado pelo desespero.

Não levaremos Mirra,
Nem queimaremos Incenso,
Nem ofereceremos Ouro.
O nosso séquito não será de Reis,
O nosso caminho não passará por Jerusalém.
Mas seguiremos a Estrela
Como há 2007 anos atrás
E chegaremos ao local exacto
Do nascimento da Vida:
Chegaremos a Jesus!

Em seu nome chegaremos!


05.Jan.2007 - 22h30