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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

15.12.06

Onde estão as minhas asas?


 
Onde estão as minhas asas
Asas de voar ao céu
De subir por sobre as casas
De tornar o mundo meu?
 
De aventureiro ir
Por sobre as ondas do mar
De subir, subir, subir…
E de desejar não voltar?
 
De por sobre a terra calma
Deambular em giraldinas
E encher o corpo e a alma
Desses campos de boninas?
 
De descer descontrolado
Entregando a vida à sorte
E por milagre sagrado
Sobreviver à negra morte?
 
Onde estão as minhas asas
Asas que o sonho me deu
E que usei vezes sem conta
Para fugir do mundo breu?
 
Oh asas que tanto bati,
Nesse bater sem parança,
Que é de vós, que vos perdi
Quando perdi a esperança?
 
Que é delas, asas de mim,
Que me levavam além
E me tornavam sem fim
Um homem, quas’anjo também.
 
Perdido neste abandono,
As asas já não sinto agora;
Caíram… Como folhas no Outono
O vento as levou embora.
  
Onde estão as minhas asas
Asas que o sonho me deu
Para voar sobre as casas
E com elas subir ao céu?
 
Perdi-as num dia louco
Quando a noite se insinuava
E a lua nova, pouco a pouco,
Sua auréola mostrava.
 
Perdendo as asas morri...
Morri por dentro no sonho
E quanto com elas vivi
É nos meus versos que ponho.
 
E digo adeus num aceno
Humano assim aos mais igual,
Que a vida é um veneno
Silencioso, pérfido, especial.
 
 
 O prometido é devido... Este é para ti, Anabela!
26.Nov.2006 – 00h30