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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

25.09.06

Gente sem vergonha!


A mentira saiu à rua
Num dia assim
E veio cruel e nua
Para qualquer fim...
 
Mostrou-se com despudor
E sem medo algum,
Como se o seu destemor
Fosse um dom comum.
 
Arreganhou os dentes
E mostrou as garras,
Mandou bocas indecentes
Tocou fanfarras.
 
Afirmou solene, a mentira,
E gritou estridente;
- Quem se queixa delira
E portanto mente!
 
Espezinhou o labor
de tantos e tantas...
Vilipendiou o vigor
de mãos e gargantas!
 
Não contente, alardeou
Sua mansidão,
Escondendo o lobo matreiro
Sob o gibão!
 
Abriu os braços pueris,
Como que a dizer:
- Vinde cordeiros servis,
Que vos vou comer!
 
Erigiu, no lugar da honra,
A pouca vergonha...
Destilou o fel e o ódio...
- Mortal peçonha!
 
Oh, Gente sem vergonha!
 

A propósito de uma notícia de jornal...

by Paulo César, em 19.Mar.2004, 09h00

25.09.06

Assim é o amor!


 

Parte em busca do sonho
E procura encontrar o amor...


No lugar das dúvidas
Planta papoilas bravias,
Cor de fogo e sangue
E cor de mel aquoso dos raios
Solares,
Quando a manhã desponta
Ou a tarde se aconchega
Na planura ondeante do oceano...


Logra chegar longe,
Pelos caminhos transviados
Da memória e do desejo,
E, quando sentires cansaço, senta-te
E inspira fundo o odor
Inebriante do trevo, da urze e dos malmequeres
Nascidos ao acaso, à beira dos caminhos
Que levam aos confins do horizonte,
Às terras da vertigem e do encantamento!


Nunca pares de andar,
De buscar,
De procurar em ti
O que só está em ti.
Nunca deixes que te digam: Pára!
Jamais aceites desistir
De encontrar o lugar sagrado
Que mora contigo,
Nas tuas angústias diurnas
E nas tuas insónias nocturnas!


Onde estiveres ora...
Adora o que te rodeia
Amando quem te rodeia...
Nem a cor, nem a raça,
Nem o ter e o poder
Te impeçam de ser
Autêntico e tu mesmo.

Certamente sujeito ao erro!
Concerteza fraco e frágil!
Tantas vezes vacilante
E curvado perante a adversidade!
É assim que tu és...
Aceita-te e confia!
O Altíssimo fará contigo
O que sozinho fores incapaz de fazer!

Assim é o amor!

 

by Paulo César, em 08.Jun.2006, às 22h50

25.09.06

Percursos...


 

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Tudo começa no dia em que não olhamos ao redor e nos lançamos na paixão avassaladora sem olhar a avisos e a conselhos.

As areias por vezes são movediças...

O terreno outras tantas é alagadiço!

 

Mas há que não perder o norte e seguir o rumo instável da vida tendo presente, sempre, três princípios básicos:

- Amar para ser amado...
- R
espeitar para ser respeitado...
- Perdoar para ser perdoado...


E usar de carinho, compreensão e muita paciência em cada dia que passa...
     
24.09.06

H e l e n a



Nisto de contar histórias eu não sou nenhum ás, mas sempre quero contar esta, por sinal algo triste. Ela aí vai…

 

Era eu ainda rapazola e este bairro não existia. A estrada ali ao fundo, que liga a avenida à escola industrial, também era só um carreiro mal amanhado, e, deste lado, para poente, os prédios rareavam, sobejando o campo de figueirais viçosos que, por esta terra, eram uma riqueza. A fonte corria ali abaixo, na cova, todo o ano, até mesmo naqueles em que o sol tudo tisnava e a seca se fazia sentir avassaladora. Água bendita aquela! Que o digam os moços daquela altura, homens hoje, que, à hora dos recreios, saíam da escola como setas e vinham dessedentar as gargantas secas como palhas e refrescar as faces afogueadas. A balbúrdia era tal que muitas foram as ocasiões em que a bulha eclodiu só porque todos queriam passar à frente de todos numa fila que não era fila nem era nada. Hoje da fonte já só existe a memória, dos figueirais a recordação e dos rapazes da escola as fotografias, algo cómicas, de que guardo, no que me toca, um exemplar, qual relíquia, digna de figurar em museu ou ilustrar as memórias que talvez um dia venha a escrever.

 

Esse passado, que não é saudosismo bolorento, mas amor ao que foi e já não é vida como antes era, assim trazido ao presente, levou-o o progresso que começa por ser a meta do Homem, mas que, a continuar assim, eu vo-lo assevero, muitos males trará ao mundo.

 

Mas, vamos lá à nossa história…

 Eu era dos que andava na escola nesse tempo. Um tempo duro, feito de saber datas e factos tim-tim por tim-tim, de empinar as glória pátrias, que incluíam as lutas contra os infiéis serracenos, intramuros e além mar, a cruzada dos descobrimentos e a missionação, os “novos mundos ao mundo” e o 28 de Maio, o doutor António de Oliveira Salazar, presidente do conselho, e o “Angola é nossa”. A ladainha dos feitos, o padre nosso da glória, o nacionalismo velho e relho e o ódio, sempre instigado, ao castelhano derrotado em Aljubarrota e expulso em 1640. O lastro do nosso saber era não saber, enquanto se idolatravam os mártires todos; do Fernando de Fez, masoquista até mais não, aos que “por actos valorosos se vão da lei da morte libertando” em cada 10 de Junho da Raça. O que nós tínhamos que não saber “A bem da Nação” não é para aqui chamado, mas hoje sei que os miúdos que vão à escola são pelo menos mais as crianças que nós nunca fomos. Ainda bem; isso alegra-me! Também são outros os tempos, outras as vontades…

  

Por exemplo, naquele tempo, as escolas eram separadas e rapazes e raparigas eram seres estranhos uns aos outros como se fosse crime o tu cá tu lá das conversas sem maldade, das brincadeiras sem intenções secundárias, dos encontros tão casuais como ser o que cada um era. Que mal teria, meu Deus? Não! As meninas eram meninas, senhoras da casa, amantes do lar, mães e esposas desde o nascimento, recatadas em tudo e sempre a pensar no futuro.

Os rapazes eram os Homens, os braços de trabalho, as traves mestras da casa e da família, e os portugueses que se orgulhavam de o ser, porque assim o ensinava a história pelo exemplo secular e religiosamente transmitido dos mais remotos antepassados. (Só o não eram os que deixavam este rincão de terra em busca de melhor vida e outras coisas, também.) Coisas que aprendíamos, até mesmo nas capas dos livros onde as bandeiras nacionais nos acenavam mensagens de patriotismo. Patriotismo… Naquele tempo…

 

Na escola, uma das miúdas chamava-se Helena. Carinhosa e infantilmente tratavam-na por Lenita. Era bonitinha, sem ser uma estrela! Vestia pobremente, senão mesmo miseravelmente. Já nem me lembro, mas julgo que levava os livros num saco de lona, velho e desbotado, à falta de dinheiro para comprar uma pasta bonita, como tinham as filhas do engenheiro Saraiva, ou as netas do Major Oliveira, ou as sobrinhas do Visconde Segismundo, gente brasonada, mas dum sangue tão naturalmente vermelho como o de qualquer outro comum mortal. Isto é: o Visconde não o era por ordem natural da sucessão familiar, mas porque, novo rico abrasileirado, acudiu à desgraça do antigos viscondes de Castro e Penalva comprando as quintas – ricas e belas quintas! – e o palacete, bem como o título, claro! Diz-se até que o seu apelido próprio é Mendes da Silva, mas que, com a transacção dos teres e haveres dos antigos sangue azul, achou por bem escolher a nova e mui nobre graça de Segismundo. Mal achada graça, digo eu! Vaidades de burguês em tempo de vacas gordas. Mas, enfim, é lá com eles…

 

A Helena, como atrás se disse, era uma miúda bonita e, mesmo pobre e mal ataviada, dava nas vistas. Mas, diga-se, nunca foi grande aluna. Então em Português e na História era aquilo a que o professor chamava uma “nódoa”. Ela bem que se esforçava, mas quê. Aquilo eram lá coisas que se conseguissem aprender?!

Foi crescendo e, com o crescer, foi-se tornando ainda mais jeitosa e mais viva de modos. Os olhos faiscavam uma ternura e um vivacidade incomum e os trejeitos corporais provocavam os rapazes, aqueles que, mesmo sendo muito novos, viam na escola uma prisão e na vadiagem libertina forma de vida e crescimento.

Os tempos correram tão repentinos que parece que foi ontem o dia em que entrei naquela cerca pela mão de minha mãe para chorar de pavor quando me vi sentado naquela sala branca, de carteiras enfileiradas, e um quadro grande, enorme, à espera de cada um de nós nos dias que vieram depois. Foi no caminho para a escola que conheci a Helena, Lenita como nós lhe chamávamos.

 

Os anos correram e tornaram-nos mais e mais velhos. Não há que duvidar!

Fiz a quarta classe com boa classificação, mas, a Lenita, essa não. Continuou mais dois ou três anos e perdeu-se. Pobre Lenita! Tão moça, tão bonita, tão viva de encantos e vivacidade. Perdeu-se… Como nem eu sei, mas perdeu-se!


 

E tudo começou no dia em que Helena não apareceu às aulas. Ninguém deu por nada, ou melhor ninguém ligou ao facto. Um dia qualquer um falta, por doença, por indisposição, por uma razão que há-de ter justificação aceitável. Mas a falta repetiu-se dois, três, quatro dias seguidos. Ao quarto dia a professora mandou recado e no dia seguinte a mãe de Lenita apresentou-se na escola. Já lá estava Helena, de olhos encovados e vermelhos de lágrimas. Falaram no átrio, cá fora. O que disseram não se sabe, nem vem ao caso, mas à despedida, junto à porta da sala, a mãe de Lenita sempre disse à senhora professora:

 

- Obrigado, minha senhora! Muito obrigado! E já sabe, quando for preciso, e ela as merecer, não lhas poupe. Desde que não lhe parta nenhum osso…!!! Só se perdem as que caírem no chão!

 

E lá foram cada uma a seu destino. A professora, com à vontade, entrou na sala e o silêncio abateu-se sepulcral. A mãe de Helena, com os nervos em polvorosa, foi indo para casa cismando para si:


- Malvada! E anda uma pessoa a criar uma filha… Para quê?! Para receber destas! Malvada… Anda que logo te cato o pêlo!

 

Prometido e feito.

À noite, ao chegar a casa, Helena recebeu uma tareia de tal ordem que ficou de cama três dias e, ao quarto, já recomposta, mas ainda dorida e com o corpo cheio de nódoas negras, vestiu a melhor roupa, saiu à sucapa com o saco dos livros, como quem ia para a escola, mas o seu destino foi o mundo. Tinha então treze anos! Era bonita, num corpo de menina mulher. Os olhos azuis, grandes, pareciam abarcar todo o horizonte e a revolta, a ânsia de liberdade, levou-a à conquista da cidade grande.

 

Como o tempo passa!!! Parece que foi ontem e já lá vão quinze anos!

De vez em quando a Helena aparece por aí! Já não é bonita! Parece velha nos seus vinte e oito anos. Sorri muito, mas o seu sorriso não é terno como antes; é provocador e os homens percebem-no e seguem-na ávidos de tomá-la na cana onde ela se vende. O corpo, metido em saias curtas e calças justas, ganhou as formas de mulher adulta. O rosto mostra-o agora maquilhado de cores chamativas, com lábios ruidosamente vermelhos. Tudo nela virou personagem num palco que é a vida em que se consome.

 

A mãe, velha nos seus inacabados cinquenta anos, chora a filha perdida e lastima-se da sorte madrasta. Mas renasce da tristeza em que se consome ao vê-la, ao estar com ela, nas curtas visitas que Helena lhe faz, mesmo quando sabe que ela não virá dormir, à noite.

 

Há quem diga que nos dias em que faltou à escola foi com o Júlio Barreira, um vendedor de automóveis, raposa velha, que havia muito rondava a escola e falava com ela. Tinha um “Triumph” vermelho descapotável e seduziu-a com promessas. Dizem! Não sei; não posso assegurar que foi assim!

O certo é que a Helena era bonita, alegre, vivaz. Pobre embora, era um pedaço de mulher. Hoje vive algures em Lisboa, terra grande onde quase ninguém se conhece, trabalha, ao que consta, numa “boite” e vende o corpo, que já não é nem a sombra do que antes foi.

 

A Helena que conheci já não existe, mas recordá-la como a conheci faz-me sentir de novo rapazola de escola, correndo portão fora quando a sineta tocava e o dia de aulas havia terminado. No alarido da saída, encontrei-me muitas vezes lado a lado com a Lenita e um dia escrevi-lhe uma quadra que nunca lhe dei por vergonha. Dizia assim:

 

Quero ser teu namorado

Mas não sei se tu me queres

Vou continuar a teu lado

Digas tu o que disseres

 

Não continuei, nem fui seu namorado. Lenita perdeu-se! E eu perdi-a! Perdêmo-la todos!

 

  Conto  By Paulo César, em 27.Mai.1982, revisto e melhorado em 24.Set.2006

 

23.09.06

Lengalenga


O acaso trouxe, ao acaso, coisas de ocasião,

Que cruzaram os mares e chegaram à praia, na rebentação,

Por cima das ondas ondulantes, que ondeantes vão!

São coisas do acaso... Mas, só por acaso, que coisas são?

 

by Paulo César, em 24.Set.2006, 00h00

23.09.06

João... João quê?


A semana passada, descia eu, como sempre, a rua em direcção à baixa, deparei, olhos nos olhos, com um miúdo, criança ainda, que, de cigarro entre os dedos, se cruzou comigo, em sentido contrário, soltando, à passagem, anéis de fumo negro, que se desfaziam céleres no ar fresco da manhã povoada dos ruídos todos da cidade que se espreguiçava, por essas horas, junto às paragens dos autocarros e dos eléctricos, ou se arrastava para o fundo dos túneis do metro.

Sorriu-me à medida que me olhava com os seus olhos verdes, felinos, e se afastava mais, sugando a nicotina mortífera que lhe alimentava o vício. Era pequeno demais nas calças sujas e remendadas. Chinelavam-lhe nos pés uns sapatos que serviam, decerto, ao seu pai (se é que o tinha) e a camisa parecia ter andado algures num caixote do lixo. A cabeça mais se assemelhava a um ouriço caixeiro, com os cabelos sujos e desgrenhados, arrepiados e oleosos. Parecendo despreocupado lá seguiu, desaparecendo na esquina adiante. Mas, no meio daquela silhueta de mendigo, sobressaiam os olhos... lindos e faiscantes!

Por momentos senti vontade de me voltar e chamá-lo, para saber ao menos o seu nome. Quem sabe se teria nome? Foi um sentimento instintivo de carinho, mas ao misturar-me com o povoléu e embrenhar-me no mundo citadino dos sinais e das filas compactas de gente que se atropelava mutuamente, enquanto se espreguiçava e esfregava os olhos ainda inchados do sono, esqueci-me dele. Assaltou-me então a preocupação do dia à minha frente e tomei atenção ao semáforo que me interditava a passagem.

Estava agora na Rua Augusta! Lancei, de relance, o olhar ao arco, avistei o Terreiro do Paço e divisei um bando de pombos e mais longe uma gaivota espraiando-se, também ela, sob os raios do sol que despontava. No Tejo, os cacilheiros iam e vinham no dorso das águas, carregando magotes de gente e do lado de lá, na outra banda, Almada mostrava-se ao dia nascente.
Envolvia-me a cidade de Lisboa com tudo o que a compunha. Já não me preocupava o miúdo de olhos verdes, lindos!



Quem conhece a Rua do Arsenal sabe como é o movimento à hora de almoço. Há gente que corre para um lado e para o outro; há turistas olhando as montras das lojas e comentando nos seus dialectos intragáveis; há velhos arrastando a vida e as bengalas com esforço; e há muita gente, de pé, junto aos balcões dos restaurantes, onde se come “bem e barato”... e com rapidez!

São funcionários, com horas curtas e relógios onde o tempo se esgota num ápice, que por ali campeiam, invariavelmente do meio dia à uma e meia, e que falam do futebol à segunda, do chefe à terça, das intrigas do emprego à quarta, da lotaria à quinta e dos palpites para o totobola à sexta. Não sei se fala de alguma coisa ao Sábado e ao Domingo...
É exactamente a meio da Rua do Arsenal que existe uma tasca pequena: o Vale do Rio! Uma das tais que serve “bem e barato” ... e com rapidez!

Lembro-me que era cerca da uma hora.
Mandara vir dobrada e aguardava. Olhava o movimento lá fora. Ao mesmo tempo o 23 para S. Bento chiava nos carris a abarrotar pelas “costuras”. Parecia impossível caber tanta gente naquela “casa amarela”, ambulante. Mas lá foi chiando. Sentado num banco alto, ao balcão, suava por todos os poros. Abafava-se...

A dobrada chegou...
Chegou também um miúdo, criança ainda, com as mesmas calças, sapatos e camisa daquela manhã. O olhar era ainda mais felino e o cabelo mais arrepiado. Reconheci-o...
Olhou-me com um sorriso envergonhado e falou...

- Tenho fome... Dê-me cinco paus para comprar uma sandes...

O sangue gelou-se-me nas veias. Senti um arrepio, como se algo cortante tivesse rasgado as minhas entranhas. Olhei-o, olhos nos olhos, medi-lhe a fraqueza macilenta no corpo enfezado e vi-lhe no bolso da camisa um maço de cigarros “SG Filtro”. Era uma crueldade terrível aquela criança por ali... Viciado e faminto...
Chamei o empregado...

- Octávio, dá-lhe uma sandes... pago eu! E um sumo...
- Como te chamas? – perguntei-lhe.
- João... – respondeu ele, com o olhar pregado ao chão e a voz abafada.
João, pensei comigo, João quê?

Veio a sandes e o sumo. João devorou-os com avidez e agradecido saíu porta fora, saltando de alegria e balbuciando:
- Obrigado, senhor!

Senti-me bem ao ouvi-lo agradecer e partir mais feliz e acabei de almoçar a pensar no João dos olhos verdes, felinos.
Onde iria dormir à noite? Teria família? Teria casa? Morava onde?
Chamei o empregado, era uma hora e quarenta.
- Octávio, faz a minha conta, se faz favor!

E fez, num instante, à minha frente, olhando o prato, o pão, a bebida, a fruta, o café. E também a sandes e o sumo do João.
- Ora, são 136$50! – disse, entregando-me a folha do bloco com as parcelas descriminadas.

Barato... Só que quando fui para pagar não tinha carteira. Desaparecera... Documentos, papeis sem valor e algum dinheiro. Pouco dinheiro, mas o que me restava. O João tinha-se encarregado de me levar a carteira.

O João... João quê?

Ainda fui à porta levado por uma reacção instintiva de revolta e desespero. Olhei a rua na direcção da Praça do Município. O movimento aquela hora aumentava. Buliçosa a cidade regressava aos empregos. Desolado, praguejei baixinho, de mim para mim.
Um reclame, por cima de uma porta, indicava uma casa revendedora de lotaria e agente do totobola, além de outros negócios sem expressão.
Tinha um nome pitoresco. Decorei-o: “A Esfera da Sorte”!

E balbuciei, engolindo a raiva: porca de sorte, a minha!


 Conto by Paulo César, em 09.Set.1981

 

23.09.06

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido...



Deambulo pelo tempo redondo,

Curvilíneo,

Empalmado entre o presente e o futuro,

Agozinando o desprazer

De ser um entre tantos

Em busca de mim mesmo.

 

Viajo rotas sem azimute,

Espraiando no horizonte

Ideias vagas, no torvelinho

Da espuma que a maré

Deixa ao abandono do sol pôr.

 

Gaivotas vão, núvens entre núvens,

No céu lento,

E cruzam-se com aviões de carreira

Que deixam riscos de fumo branco

Como sinal e prova...

 

Um silvo agudo e sibilino

Irrompe e fulmina

A distância...

Um navio voga distraido

No oceano raso da minha imaginação...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido...

 

by Paulo César, em 18.Set.2006, 19h00

22.09.06

Voo sem retorno


 

A lonjura espraia-se pelo horizonte

Pelas terras alagadiças do além sonhado

Um pássaro de fogo sobrevoa a memória

Adejando solitário no tempo quebrado...

 

Nos longes da saudade

Um silvo distende-se no côncavo

Da silhueta abandonada

Um trinado reverbera no silêncio que incendeia

E algures um uivo rasga a pele

Gretada e dormente.

 

 

O pássaro voou... fugiu!

O tempo irresistível elevou-se,

Evolui no ar qual labareda,

E ficou velho a cada novo minuto.

 

Corpos aládos voam!

Pelo menos o sonho tem asas...

 

By Paulo César, 21.Set.2006

 

14.09.06

A l e g r i a



Doce, como o mais doce dos doces,
Planta em mim a doçura do mel,
E faz que eu seja do gosto do morango
E rubro como a papoila do campo
Que o vento embala com doçura.



Senta-te a meu lado...
Olha o azul do céu, a lua cheia...
Sente a brisa que sopra nos ramos...
E absorve o odor da terra quente!

Liberta-te de ti mesmo e mergulha
No mais fundo das coisas pequenas,
Das pequenas coisas que estão por aí
E que ninguém vê...



Sorri à vida que te rodeia!
Abraça as pessoas que não conheces!
Beija os miúdos que não são teus!
Leva pela mão o velho que não é teu pai,
Nem teu amigo, nem teu vizinho,
E ama-o como se essa fosse
A forma de ser eterno!

Se acordares entretanto, grava o sonho
Na tua memória de gente sábia
E sê feliz à maneira dos que são!

A alegria  começa no momento
Em que, olhando ao teu redor,
Sintas que deves dizer:
OBRIGADO!

by Paulo César, em 14.Set.2006, 22h40
14.09.06

Ode aos amigos


 

     

É QUE HOJE FIZ UM AMIGO...

 

 

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E, COISA MAIS PRECIOSA

 

 

NO MUNDO, NÃO HÁ!

                        

      

" Se alguma vez
Me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo
Que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania
Yolanda, Yolanda
Eternamente Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda
Eternamente Yolanda "


(excerto da canção "Yolanda", de Chico Buarque)

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