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No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

No Chão d'Água...

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? (Álvaro de Campos)

24.08.06

Desejo



Devora-me...
Possui-me...

Entra em mim
Como navio na barra,
Deixa que os meus poros
Sorvam o humus da tua pele
E ancora nos meus braços!

Ergue-me qual bandeira
No mastro real,
Mas não deixes que eu naufrague
Na praia,
Rente à espuma das ondas,
Sedento e faminto de ti!

by Paulo César, em 22.Ago.2006, 08h00
13.08.06

Interrogativa



O parco olhar...
A luz arisca...
O claro sonho...
Algures Deus...
Longe o passado...
Distante a meta...
Por dentro a dor...
Por fora a sombra...
Esquecido o tempo...



Quem sou?

Quem penso ser?
Se ao acaso penso
sentindo ser
quem nunca sei?


by Paulo César, 14.Fev.2006, 01h40
13.08.06

In memoriam






Não sou esperto nem bruto,

nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.

Porque será que nós temos
na frente, aos montes, aos molhos,
tantas coisas que não vemos
nem mesmo perto dos olhos?

Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.

Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão?


À memória do grande poeta popular, António Aleixo
13.08.06

TSUNAMI (um ano depois)





Quando tu chegaste
eu estava aqui,
a milhares de quilómetros a ocidente,
para lá do medo e da dor,
nos antípodas da amargura
e do desespero!

Vi-te pela televisão
e não quiz acreditar
que do nada tu tivesses
irrompido furioso e gigantesco
para cobrir de morte
e destruição massiva
a terra e as pessoas
com olhares de ausência
e gritos lancinantes
de quase incredulidade e raiva!

Ainda hoje me sinto
vazio
dessa dor alheia
e doi-me não ser capaz
de aprender a dimensão
da tragédia
e a profundidade da devastação!



Choro por ver e sentir
aquelas imagens testemunhas
mas sei que não sou capaz
de verter o sabor daquelas lágrimas,
o terror daqueles olhares,
a lancinante dor das perdas,
sem remissão possível,
de quantos ceifaste
no fragor dos momentos
daquele dia!

O que sei de ti é quase nada;
O que sei de vós,
gente que o mar engoliu,
fica-se pelo silêncio
da ignorância!


by Paulo César, 26.Dez.2005, 20h35, Torres Novas,
no primeiro aniversário do Tsunami no Sudoeste Asiático
13.08.06

O rio





Onde vais rio que corres
Entre margens e chorões?
Onde vais levar tuas águas
Barrentas de aluviões?

Que força te impele, rio,
Nesse correr sem parança?
Onde pretendes chegar?
Ao mar largo, sem bonança?

Queda-te um pouco, um pouquinho,
E fica à sombra das margens
A sussurrar de mansinho

Tuas velhas correrias
E tuas mansas viagens,
Desde o dealbar dos dias...


by Paulo César, 19.Mai.2006

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