Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Poema improvável

 

A vagarosa luz

penetra a sombra

fecundando a penumbra

macilenta

 

a gélida chuva

irrompe intrépida

violando o silêncio

da terra prostrada

 

o vento suão

esventra as casas

aferrolhadas

e submete o espaço

 

a noite alastra

dominadora
acicatando os medos

que escravizam

 

o mar investe

marulhando

no areal exposto

em poisio

 

De olhos em riste

aponto algures

um ponto improvável

onde se cruzam

todos os sons e silêncios,

toda a luz e toda a treva,

todo o tempo e todo o espaço,

toda a vida

e o que virá depois!

 

by Paulo César, em 03.Nov.2009, pelas 13h15

 

 


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publicado por Paulo César às 18:30
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Sábado, 17 de Outubro de 2009
Em nome da Terra

 

Bato às portas e pergunto:

até quando?

E o grito que ecoa nos cantos

diz-me de volta:

não sei!

 

Vou pela ruas, triste e andrajoso,

e pergunto a quem passa:

até quando?

E em coro respondem:

não sei!

 

Olho ao redor e enfrentando o horizonte,

questiono o silêncio

e a sombra calada,

que, sempre seguindo os passos que dou,

jamais me responde.

 

E a pergunta rotunda,

prenhe e repetida,

ancorada nas praças,

lançada nas ruas,

esvoaça pairando sobre as multidões

e como agoiro alastra

a incendiar temores:

até quando?

 

E quando a noite irrompe

a tomar seu espaço

e assenta arraiais sem pedir licença

por dentro das casas

cresce um alvoroço

de olhares severos em corpos de espanto,

quando o grito mudo

se solta expontâneo

das bocas fechadas:

até quando?

 

E o silêncio que fica depois da questão

é um grito estridente nas veias

sanguíneas

a pedir resposta:

até quando?

 

by Paulo César, em 17.Out.2009, pelas 17h45


sinto-me: preocupado
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publicado por Paulo César às 18:06
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
Apelo da terra

 

Chamam-me os luares, as ventanias,
O coachar das rãs, o chiar das noras,
O canto dos ranchos na faina dos dias,
O repicar dos sinos ao cair das horas.
 
Chamam-me o odor a feno e a trigo loiro,
O frescor das águas alagando as hortas,
O vivo das papoilas e o verde dos prados,
Das memórias vivas de tantas vidas mortas.
 
Chamam-me os silêncios ao redor do fogo
- que a lareira acesa a todos congregava -
As histórias simples com nacos de gente
Em palavras nuas de tanto e de nada.
 
Chamam-me de longe o que nunca foi
Para além de mim mais do que um passo nu.
Chamam-me… e só oiço, porque ainda dói,
Ouvir alguém tratar-me por tu!
 
E a terra que fui é a terra que sou,
Que só terra pode ser quem da terra veio…
E meu corpo de gente cresceu e sonhou
Ser da terra pó, voltar ao seu seio!
 
Campo e mais campo foi meu elemento,
Terra e mais terra foi minha raiz
E é deles que eu sinto febril chamamento,
Dizendo, gritando: Anda ser feliz!
 
 
by Paulo César, em 18.Jan.2009, pelas 22h00

sinto-me: terra viva
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publicado por Paulo César às 20:12
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Sábado, 5 de Julho de 2008
Do chão e da alma

 

Há no ar uma magia

desconcertante

e a luz tem o sabor

impregnado das amoras silvestres,

como se fora lua cheia

e os pirilampos ziguezagueassem

ao encontro do sonho

nos penhascos da via-láctea.

 

Sinto-me cheio da vontade

de ir na direcção do acaso

a colher marmequeres campestres

e papoilas rubras de desejo

ouvindo o coachar de rãs preguiçosas

ou o zumbido de abelhas ladinas

no silêncio de sombras vivas

à beira de caminhos feitos de passos imponderáveis.

 

Sento-me onde me sinto cansado

e retomo a marcha quando me chamam os pássaros

ou quando os latidos agudos dos cães vigilantes

demarcam o espaço entre o possível e o ímpossível.

Quando me deito é porque a noite me abraça

e envolto na sinfonia maniqueista dos ralos notívagos

dou de caras com a matemática da vida

e enceto a aprendizagem duma tabuada informal.

 

Somo parcelas imprevisíveis de vontade,

subtraio arremedos de decisão,

multiplico por ansiedade a demência do tempo gasto

e divido em partes iguais o que não é divisível.

E o que sobra, se acaso sobra,

não é resto nem quinhão,

é um conjunto de nada e vazio

que preenche tudo o que sou

até transbordar pelos poros cavados

na rudeza da pele gretada

como sulcos de arado no campo em pousio

onde não crescem nem cardos nem girassois,

nem hortênsias ou morangos,

mas germina libertinamente

a erva alta que ao longe parece seara

e ondeia como seara

 e cresce, e vive, e amadurece como seara

que não é, mas parece ser.

 

Inspiro fundo a bsorver os odores todos

que enchem o espaço, do local ao infinito,

até ficar zonzo da plenitude das fragâncias.

E adormeço sem a noção do sono ou do sonho

esbugalhando o olhar para me perder no horizonte

e mergulhar na vida viva que se alimenta

do sol e do mar, da noite e do dia,

e de mim!

 

É então que caminhando acordo de estar acordado

e busco no espaço em redor

a origem dum arrulhar inconfundível...

No cimo dum ramo seco que foi pinheiro,

ou azinheira, ou sobreiro, ou o que tiver sido,

uma rola breve cumprimenta-me de passagem

dizendo-me na sua linguagem de ave que eu reconheço:

- Cucurru... Cucurru... Curru...

 

É nesse momento que os olhos ficam marejados

e, seguindo embora, os passos já não vão,

ficam ali, entre o caminho e o destino,

a saborear o momento único e a viver o encontro

de mim com o que resta de mim

enquanto a rola se eleva no ar

como se desfraldasse o lenço branco do adeus

e batendo as asas frágeis escrevesse a mensagem

que não consigo dizer por mim mesmo:

- Obrigado!

 

by Paulo César, em 30.Junho.2008, pelas 22h30

 


sinto-me: cheio de vida
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publicado por Paulo César às 14:26
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