Sábado, 28 de Novembro de 2009
Olhar de pedra


Violáceo olhar de pedra

enxergando a distância dum adeus

em ti o sorriso nunca medra

tu só conheces a frieza dos breus!


Nenhum trinado te faz ceder

à beleza do passaredo que voeja

que esse olhar não sabe ver

para além da solidão que de ti goteja.


Os prados verdes e serenos

os montes erectos e altivos

os bosques rudes e vivazes


nada é antidoto para os venenos

que alimentam teus olhos mortos-vivos

num corpo de medos tão mordazes.

 


by Paulo César, em 28.Nov.2009, pelas 09h45

 


sinto-me: prescrutador
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publicado por Paulo César às 14:59
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Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
Para ti, Mãe

 

Vergo-me ao poder do teu olhar

límpido, cristalino,
do teu sorriso cintilante,
infantil, doce,
das tuas mãos de desenhar
caravelas sem rumo,
rumo a destinos virgens,
com a força redonda
do teu abraço puro,
quente, de ancoradouro.


Esqueço-me das horas
à beira da falésia
do teu promontório
de afagos,
no aconchego dos segredos
que me confias
para que eu te possua
na inóspita distância
dos dias que vierem.


Na imensidão dos momentos
fugazes que me ofereces

esqueço-me até de respirar

e desconfio mesmo

que o coração deixa de bombear

o sangue que me mantém vivo

para me dedicar só e apenas

ao encantamento
de estar contigo.


Quando for e onde quer que vá

tu irás comigo
na saudade e na memória
gravada a fogo
na pele que tocaste,
na mão que me estendeste,

no beijo que selou o nosso adeus,

mas, mais do que tudo e definitivamente,

no brilho radioso
que explode do teu olhar

como girândolo de foguetes

em dia de romaria.


Lembrar-me-ei para a eternidade

do teu sorriso imaculado
e saberei, ao lembrá-lo,
que as portas do paraíso
estarão sempre abertas
no fim de todas as veredas
onde a tua sombra calada
se projectou
desenhando um futuro

de tanto amor e maior perdão.


E porque calar doi
deixa que te diga, agora,

no mais silencioso dos silêncios,

sem usar palavras escusadas

ou desnecessárias ou incapazes

de definir o que quero dizer

que, de todas as mulheres mães,

só tu poderias ser
minha

mãe!


E nem eu sei explicar porquê,

mas é assim que o sinto

e assim quero que o saibas!

 

by Paulo César, em 04/09/09, pelas 20h45


sinto-me: grato e feliz
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publicado por Paulo César às 21:23
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Sábado, 5 de Julho de 2008
Do chão e da alma

 

Há no ar uma magia

desconcertante

e a luz tem o sabor

impregnado das amoras silvestres,

como se fora lua cheia

e os pirilampos ziguezagueassem

ao encontro do sonho

nos penhascos da via-láctea.

 

Sinto-me cheio da vontade

de ir na direcção do acaso

a colher marmequeres campestres

e papoilas rubras de desejo

ouvindo o coachar de rãs preguiçosas

ou o zumbido de abelhas ladinas

no silêncio de sombras vivas

à beira de caminhos feitos de passos imponderáveis.

 

Sento-me onde me sinto cansado

e retomo a marcha quando me chamam os pássaros

ou quando os latidos agudos dos cães vigilantes

demarcam o espaço entre o possível e o ímpossível.

Quando me deito é porque a noite me abraça

e envolto na sinfonia maniqueista dos ralos notívagos

dou de caras com a matemática da vida

e enceto a aprendizagem duma tabuada informal.

 

Somo parcelas imprevisíveis de vontade,

subtraio arremedos de decisão,

multiplico por ansiedade a demência do tempo gasto

e divido em partes iguais o que não é divisível.

E o que sobra, se acaso sobra,

não é resto nem quinhão,

é um conjunto de nada e vazio

que preenche tudo o que sou

até transbordar pelos poros cavados

na rudeza da pele gretada

como sulcos de arado no campo em pousio

onde não crescem nem cardos nem girassois,

nem hortênsias ou morangos,

mas germina libertinamente

a erva alta que ao longe parece seara

e ondeia como seara

 e cresce, e vive, e amadurece como seara

que não é, mas parece ser.

 

Inspiro fundo a bsorver os odores todos

que enchem o espaço, do local ao infinito,

até ficar zonzo da plenitude das fragâncias.

E adormeço sem a noção do sono ou do sonho

esbugalhando o olhar para me perder no horizonte

e mergulhar na vida viva que se alimenta

do sol e do mar, da noite e do dia,

e de mim!

 

É então que caminhando acordo de estar acordado

e busco no espaço em redor

a origem dum arrulhar inconfundível...

No cimo dum ramo seco que foi pinheiro,

ou azinheira, ou sobreiro, ou o que tiver sido,

uma rola breve cumprimenta-me de passagem

dizendo-me na sua linguagem de ave que eu reconheço:

- Cucurru... Cucurru... Curru...

 

É nesse momento que os olhos ficam marejados

e, seguindo embora, os passos já não vão,

ficam ali, entre o caminho e o destino,

a saborear o momento único e a viver o encontro

de mim com o que resta de mim

enquanto a rola se eleva no ar

como se desfraldasse o lenço branco do adeus

e batendo as asas frágeis escrevesse a mensagem

que não consigo dizer por mim mesmo:

- Obrigado!

 

by Paulo César, em 30.Junho.2008, pelas 22h30

 


sinto-me: cheio de vida
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publicado por Paulo César às 14:26
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