Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Rei Sol

Framboesa magenta

azul e lilás

voragem cinzenta

num voo fugaz

 

acorda-se o dia

na aurora fulgente

escondendo a fria

noite pungente

 

cresce sibilino

alcandorando-se altivo

como arrogante inquilino

do celeste cativo

 

derrama sem lei

o que a lei não domina

portentoso rei

que tudo ilumina

 

e por milénios quedo

mas avesso à clausura

percorre em segredo

o dia todo e a noite escura

 

e quando o sonho se abeira

no sono dos vivos

ele vai sem canseira

com seus raios altivos

 

dar luz à cegueira

e libertar os prostrados

os sem eira nem beira

os desterrados

 

coado que seja

pelo manto nublado

é ele que se almeja

no Inverno cerrado

 

altares de ofício

são os cumes serranos

aras de sacrifício

levantai oh humanos

 

que aquele que explode

em tão constante explosão

é a vida que a vida sacode

e merece vossa atenção!

 

 

by Paulo César, em 25.Nov.2009, pelas 20h00

 


sinto-me: preocupado
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publicado por Paulo César às 08:23
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Sábado, 17 de Outubro de 2009
Em nome da Terra

 

Bato às portas e pergunto:

até quando?

E o grito que ecoa nos cantos

diz-me de volta:

não sei!

 

Vou pela ruas, triste e andrajoso,

e pergunto a quem passa:

até quando?

E em coro respondem:

não sei!

 

Olho ao redor e enfrentando o horizonte,

questiono o silêncio

e a sombra calada,

que, sempre seguindo os passos que dou,

jamais me responde.

 

E a pergunta rotunda,

prenhe e repetida,

ancorada nas praças,

lançada nas ruas,

esvoaça pairando sobre as multidões

e como agoiro alastra

a incendiar temores:

até quando?

 

E quando a noite irrompe

a tomar seu espaço

e assenta arraiais sem pedir licença

por dentro das casas

cresce um alvoroço

de olhares severos em corpos de espanto,

quando o grito mudo

se solta expontâneo

das bocas fechadas:

até quando?

 

E o silêncio que fica depois da questão

é um grito estridente nas veias

sanguíneas

a pedir resposta:

até quando?

 

by Paulo César, em 17.Out.2009, pelas 17h45


sinto-me: preocupado
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publicado por Paulo César às 18:06
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Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Primavera

 

Telúrica a vontade

crispa-se na rudeza das horas

e adormece ante o indício

da espera.

Os abismos da dor

entrelaçam a esperança

num abraço singular

mortífero.

Paira nas ressonâncias

do sonho-pensamento-ideia

a incerteza do amanhã,

desenhado agora

como esquisso ou aventesma.

 

Maremotos de raiva

alagam as cercanias

da consciência naufraga

e cavalgando o Adamastor

do sombrio horizonte

o ponto cardeal, que é destino,

perde-se na bruma

amante de sereias e tritões

como se fora arauto da discórdia

ou da disputa.

 

A folha caída do Outono

reinante redemoinha

na força centrífuga das correntes

antagónicas
cruzadas

e tomba mais longe.

E já morta não morre!

E já prostada e só

incorpora a força de ser

nutriente e retorna ao ventre da terra

hibernando apenas,

na esperança incontida da Primavera

anunciada!

 

Glacial o alvo manto

ou o gélido tufão soprado de norte

chegará...

Chegará ainda o tempo

cujo tempo se fará de aconchego

e noites longas...

E as palavras, ladainhas,

pedirão o Sol!

 

E o Sol virá

como as andorinhas,

como as cegonhas brancas,

como a urze do monte,

como o malmequer do campo,

como o intenso amarelo da flor das mimosas...

 

Virá mesmo quando estiveres distraído

a contar estórias tristes

de saudades passadas.

Virá sempre!

 

Ah, como virá!

E tão primaveril...

a Primavera!

 

 

by Paulo César, em 07.Out.2009, pelas 20h15


 


sinto-me: remoçado
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publicado por Paulo César às 10:16
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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009
Qual liberdade?

 

Quando me apetece sonhar
Sento-me no chão
Para sentir pulsar a terra
E adivinho o fervilhar dos formigueiros
Na azáfama de garantir o futuro.
 
Levanto voo nas asas duma rola brava
E poiso saltitando com um pardal inquieto
Numa roseira brava da beira do caminho.
Ensaio a medida da distância que vai
Do meu lugar ao ponto mais distante
Do horizonte
E preencho o tempo lançando beijos
A todos os insectos que passam por mim
Indiferentes ao meu desvario.
 
As plantas ao redor nascem, crescem e morrem
Apesar da minha presença
E uma flor lilás, de que não sei o nome,
Acolhe, num abraço extasiado,
A visita duma abelha ladina
Que a vai polinizar…
- Amam-se sem preconceitos os dois
Apesar da indesmentível poligamia do insecto!
 
Eu sinto-me privilegiado por ser livre
E poder sentir o sopro suave da aragem
Que passa sem me dar palavra,
Na pressa de chegar, nem ela sabe onde.
Aconchego-me sob a copa dum carvalho velho
Que, por entre os braços estendidos dos ramos,
Deixa que o sol me enlace
Num jogo de luz e sombra.
 
Algures um canário trina
Como se pedisse socorro…
Abro os olhos e lanço a atenção para longe,
Na direcção do grito canoro
E dou-me conta do óbvio:
- O infeliz está preso numa gaiola dourada
Suspenso do lado de fora de uma janela fechada
E chora
Naquele seu cantar de encantar!
 
E eu que me sinto livre fico preso do grito
E num trinar de assobio
Respondo ao seu desafio…
E por momentos sou a irmã ave
Da ave minha irmã
Que reclusa e só
Olha o espaço largo a que pertence
E canta para dizer:
- Tenham dó!
 
E se o sonho era o sonho foi
E de volta ao real concluo:
Nem o canário terá a liberdade reclamada,
Nem eu aquela tantas vezes sonhada!
  
by Paulo César, em 01.Jul.2009, pelas 18h30

sinto-me: interrogativo
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publicado por Paulo César às 19:16
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