Domingo, 22 de Abril de 2007
Sete pedras raras


Tenho sete pedras raras

Num bolso cheio de nada,

Todas belas, todas caras…

Tendo sete pedras raras

Não me furto à caminhada!

 

Cada pedra tem seu toque,

Cada uma tem seu som

E ao tocá-las sinto um choque…

Pois se cada uma tem seu toque

Livre é o mundo! Livre e bom…

 

Sete pedras que são minhas.

Sete e sete, quantas são?

Sete escravas ou rainhas…

Todas as sete são minhas

E adornam-me o coração!

 

 

by Paulo César, em 09.Ago.2005, pelas 22h50


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publicado por Paulo César às 16:42
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Segunda-feira, 9 de Abril de 2007
Procura-me


Procura-me como se procurasses no escuro...

Tateia... Palpa o negro que te envolve e sente
o vazio, o oco, o indizível...

Procura-me na claridade da aurora matinal...
Naquele raio único que brota por detrás daquela núvem
fantasmagórica, opaca, disforme
e mergulha no alvor como se fosses renascer.



Procura-me no silêncio dum caminho sem destino,
à sombra de um cipreste esguio,
no chão quente onde o formigueiro se afadiga
enquanto a cigarra desgarra um grito
que enche o ar irrespirável dum coro estridente
quando o verão vem tisnar e colorir de castanho oiro
o horizonte que se espraia na planura e na distância.

Procura-me nos teus olhos que me olharam fixamente!
Eu estarei lá, imagem que guardaste e que revelas
quando a memória despertar
e tu acordares para a saudade.

Procura-me no sabor lascivo dos teus lábios,
na reentrância profunda das tuas coxas,
na macieza suave da tua púbis,
na força avassaladora dos teus braços,
no extase submisso do orgasmo...

Procura-me no sabor amargo duma lágrima orfã
que veio lavrar um risco incerto
na tua face sofrida...

Ou no braço levantado que acena um adeus
ou na palma da mão aberta por onde desliza
um beijo lançado no sopro suave que corre ao teu encontro
e que te ajudará a suportar a despedida
até ao dia do reencontro.



Procura-me...
Mesmo que não me encontres eu estarei lá!


by Paulo César, em 09.Abril.2007, pelas 22h45

sinto-me:
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publicado por Paulo César às 22:28
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Terça-feira, 27 de Março de 2007
Desabafo...



Hoje apetece-me não escrever...
Vou fazer de conta que o dia de hoje não aconteceu
e olhar no espelho os meus olhos fundos,
arregalados e emudecidos,
quase atónitos, embriagados de perplexidade,
e encolher os ombros com a indiferença
velhaca de quem nada tem para dizer,
e no entanto diz...

Não! Definitivamente hoje foi um dia não.
Um daqueles dias que vêm na volta da maré,
no dorso das vagas, ao arrepio da vontade,
e que entram por nós adentro com o fragor de um soco,
a insolência de uma imprecação,
o destemor de um salteador,
e instalam-se sem pedir licença ou esperar
por consentimento.



Hoje apetece-me não escrever...

Que fique apenas o desabafo,
o suspiro,
o olhar vago, circunspecto,
as palavras maceradas,
quase em carne viva...

São assim os dias!
Difíceis... Pesados!
Autênticos!
Vividamente vivos...

by Paulo César, em 27.Mar.2007, pelas 23h00

sinto-me: exausto, desiludido
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publicado por Paulo César às 23:01
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Terça-feira, 13 de Março de 2007
Por acaso



Por um acaso fui longe
no louco sonho do amor
Por acaso dum acaso
inventei a própria dor

Por acaso descobri
que sendo eu este que sou
só por acaso vivi
o que a memória guardou

Foram por acaso cartas
mil telefonemas, viagens,
mil outros sonhos sonhados
muitas esperas, miragens

Do acaso fiz parceiro
a quem tudo confiei
entreguei-me verdadeiro
do que restou já não sei

Só por acaso aqui estou
a escrever... e por acaso
do que fui e já não sou
não cheguei a fazer caso

Vivo dos sonhos pequenos
que engrandeceram meu sonho
e me tornaram ao menos
inteiro no que componho

O acaso não vem ao caso,
mas por acaso ou não
não é só obra do acaso
as palavras, o refrão.

Meu canto feito poesia
construo-o eu por acaso
dando mais em cada dia
apesar da idade ou prazo.

by Paulo César, em 13.Mar.2007, pelas 23h00

sinto-me: ao acaso
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publicado por Paulo César às 22:53
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Domingo, 11 de Março de 2007
Carta (em pezinhos de lã)



Sabes, hoje apetece-me dizer coisas sem nexo.
Coisas que tu entendas e que eu não saiba como dizer,
coisas simples, que se complicam na medida em que eu
sou incapaz de dize-las de forma escorreita,
simplesmente.

Hoje apetece-me escrever uma carta, com palavras
raras, quase preciosas, com consabidos sons que só tu
percebas e saibas decifrar no silêncio da leitura,
talvez sentado no sofá da sala, ou deitado,
de papo para o ar, no quarto cheio de luz que entra
como se jorrasse duma fonte eterna, duma nascente
miraculosa, dum algar de remotas cavidades,
quase uterinas, quase fermentadas no desejo ou no sonho.

Sinto as palavras deambularem por todo o meu corpo,
inundarem as minhas entranhas, aflorarem aos meus lábios
e, sem pudor, cavalgarem os meus braços, as pontas
dos meus dedos, que agitados e impacientes, buscam
papel e caneta e fazem uma algaraviada de rabiscos
enchendo de alto a baixo aquela folha branca, abandonada,
inerte, que se havia aninhado numa gaveta escura
como se aguardasse a hora de fugir, no sopro pressuroso
do vento norte, quando a lua estivesse pendurada na Via Láctea.

Sinceramente, apetece-me escrever, simplesmente escrever.
Amor, água, sol, pedra, silêncio, esperança,
cantigas, sorrisos, beijos, olhares,
cavalgada, liberdade, mar, azul, horizonte,
desejo, livro, poema, sexo, terra, rio,
sul, longe, pessoas, caminhos, nunca,
talvez, sim, porque não, obrigado!

Apetece-me marcar o tempo da escrita
com este impulso que me obriga a escrever,
que me empurra para o lugar único de mim
comigo, como se atingisse o extase, o climax,
o transe, e fosse nesse momento, que são muitos,
mas sempre únicos, estoutro de mim mesmo.



Tu sabes do que falo!

Tu sabes do que escrevo!
Tu sabes o que sinto!

Por isso, hoje, quando escrevo, apetece-me pôr
na folha lisa, sóbria, disponível, todas as palavras possíveis
e algumas espúrias, como guerra, armas, fome, doença,
solidão, abandono, ódio, desespero e todas as que não
cabem no meu dicionário de sinónimos,
porque não sei como traduzi-las (nem me apetece)
e cheiram a mofo, a morte, a corrupção da vida.

Como gostaria de escrever palavras bonitas, belas,
prenhes de fulgor e vida, transbordantes de luz.
Palavras capazes de por si mesmas construir amizade,
fomentar carinho, desenvolver ternura, desencadear amor,
cultivar sorrisos, entreajuda, felicidade,
e mandar, sem vacilar, para o caixote do lixo, real
ou virtual, todas as que não fazem falta e andam por aí
a causar desencanto e desacato.

Hoje, apetece-me escrever uma carta como nos bons
velhos tempos, pontuando os sentimentos com trejeitos
de paixão, de encantamento, de loucura,
para te fazer sentir de novo jovem, remoçado,
embevecido no embalo duma paixão avassaladora,
única e eterna, para sempre, definitiva.

Hoje, a carta que te escrevo, escrevo-a em pezinhos de lã,
como se cada sílaba fosse de algodão doce,
ou de farófias, ou de sorvete de leite e chocolate,
e cada palavra levasse consigo a cadência de beijos,
o sussurro de segredos, a fugaz ausência de um adeus
lançado de longe, antes do virar da esquina e da perda.

Não! Hoje esta carta quer dizer simplesmente
o que me apetece dizer, como se o tivesse que dizer
obrigatoriamente, antes de mais nada.
Tu és o destinatário e sabes o motivo.
O remetente também sabe a razão, só não sabe explicar
PORQUÊ?


by Paulo César, em 11.Mar.2007, pelas 20h15


sinto-me: estranhamente eu mesmo
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publicado por Paulo César às 19:44
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Sábado, 20 de Janeiro de 2007
Murmúrio



Poiso no teu corpo
Os olhos da noite,
Devagar,
Silenciosamente.

Vagamente mergulho
Na memória de ti
Percorrendo cada curva,
Cada saliência,
Cada pedaço de pele,
Como se rasgasse
O horizonte
Até ao infinito.

Invado a saudade
Do tempo perdido
Como se penetrasse anónimo
O segredo inviolado
Do teu olhar
E por ele atingisse
A perfeição
Ou o Éden!

Escravo da ausência
Dependo do teu halo,
Da tua sombra,
Do eco fantasmático
Que ressoa no absurdo
De presentir-te onde não estás,
Onde não podes estar.

O teu retrato, em contraluz,  tolda
O ambiente onde me aninho
E por ele me ligo a ti,
Qual cordão umbilical
Inquebrável.

E no entanto há uma distância
Que jamais encurtaremos
Pois ambos sabemos
Que a dor do murmúrio
Permanecerá
Inalterada e firme
Para nos fazer amantes
Um dia após outro dia
Até ao fim dos nossos dias!

by Paulo César, em 19.Jan.2007, às 23h45

sinto-me: Silencioso
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publicado por Paulo César às 23:44
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