Terça-feira, 8 de Junho de 2010
Grito!

 

"Guernica", de Pablo Picasso (imagem retirada da internet)

 

Sempre que busco o essencial, descubro o acessório e o secundário

E rendo-me à sofrivel incapacidade de ir mais fundo e mais  longe

Na descoberta do sonho ou do remédio que cure a teimosia exausta

Que continua a lançar-me para diante ainda que resignado

À certeza de que a chegada se fará dolorosa e a estrada será longa.

 

Dias e dias, teimosos e repetidos, passos e mais passos, perdidos

Na vagarosa e impenitente cisma de continuar ainda, sempre,

Mesmo quando o sol desmaia no horizonte e a luz se apaga nas janelas

Para acolher no silêncio pardo de noites gémeas de outras noites

Os braços soltos de amantes pressurosos, envoltos na penitência do amor.

 

Lagos azuis e pomares de estrelas, pintalgados de névoas e neblinas,

Sussurram na plangente abóbada do infinito, onde respiram os anjos

E vivem os querubins, entre as constelações das almas sofridas e eleitas,

Comensais da mesa dos salmos e guerreiros da irmandade da via láctea,

E se projectam as verdades absolutas e as incertezas jamais esclarecidas.

 

Nada sei de ser espírito, neste corpo de matéria frágil, mais do que um porção

De fé e uma descoberta permanente das minhas fraquezas e imperfeições!

Incomoda-me a debilidade que me atordoa e escraviza, como me seduz a infantil

Submissão ao livre arbítrio que uso sem regra ou lei, avesso a justificações

Injustificadas ou a metáforas, alegorias e avulsas retóricas de cartomante.

 

Diabolizo a inverdade e ostracizo a purulenta invenção da escravatura

Que engravida as vidas recorrendo às técnicas da sedução corruptiva

Da publicidade asfixiante e dos abjectos sinais de ostentação redundante

Como se tudo fosse um todo e todos pudessem tudo, mesmo quando

Todos sabem que tudo é relativo e tão pouco de todos.

 

A hipocrisia criou raízes no espaço, onde antes crescia a sorriso das crianças!

A resignação ganhou estatuto, onde antes se escutavam as lições de vida e o saber dos velhos!

O silêncio campeia autoritário, onde ainda há pouco se digladiavam paladinos da palavra!

E contra as bandeiras do respeito e da civilidade, drapejando no mastro supremo e soberano,

Crescem agora ódios arvorados em direitos, como se tivessem voltado os autos de fé

 

Das santas inquisições d’antanho – reviralho pós-moderno de lantejoulas e purpurinas!

Arrenego-te satânica arrogância de olhos doces! Falas mansas de consabidas palavras

Que seduzem incautos ouvintes e sensíveis corações de comoção expontânea  e bem-querer

À flor da pele! Vácuas e insalubres são as promessas que lançais aos quatro ventos,

Pestilências de severo calibre e contaminantes efeitos gotejam de vossos corpos de pústula!

 

Masmorras de sodoma! Antros de gomorra! Fétidos prustibulos de devassidão e orgia!

Jamais negarei a imperfeição que soletro na conjugação das forças que me faltam

Quando empunho a demência e me submeto à loucura do combate corpo a corpo!

Ainda assim, não me entregarei sem luta, à melosa semântica dos cânticos em falsete

Que vozes soezes irradiam a tingir o éter... De pé morrem os arautos da esperança!

 

De pé! De olhos em riste, como espadas que ferem o tempo e a cobardia

E lavam as dores dos corpos e da alma no sangue dos puros e dos heróis anónimos...

De pé! Como as árvores e os gritos de revolta, arrancados do humus dos ideais

De justiça, a conquistar o pão nosso de cada dia, e a luz, e a dignidade...

De pé! Com os braços em cruz e o corpo alagado no suor do mourejar dos dias!

 

Mas de pé!

Com a voz cristalina, como a água fresca das fontes e das nascentes tímidas...

Com a alma livre e liberta, à semelhança dos pássaros e dos poetas eternos...

Com o pensamento adulto, levedado no alfobre das ideias e na perseverança do amor...

De pé! Ainda que doa dizer não e o sono alastre a querer tomar-me de assalto!

 

Do homem se dirá: morreu... de pé!

 

 

Em 02.Maio.2010, pelas 23h00 - PC


sinto-me: revoltado
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publicado por Paulo César às 21:36
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Grito do Ipiranga

 

Vinde vós os que calais as mãos calejadas

e tropeçais nas palavras a esconder razão

e com olhares pequenos alcançais o sonho

de escalar a dor e a imensidão


Vinde e desafiai o vasto e o longe

quietas silhuetas que o luar descobre

cavai as distâncias em passos de febre

veredas sinuosas onde o suor é nobre


aviltadas figuras de tantos silêncios

rostos de granito sem alma nem deus

frios corpos onde o sangue coalha


cravai a revolta na ponta da espada

esconjurai o medo, movei terra e ceus

erguei o pendão, preparai a batalha

 

(que a hora é de quantos não têm voz,

mas têm dignidade!)

 

by Paulo César, em 04.Nov.2009, pelas 19h15

 


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publicado por Paulo César às 19:37
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Monólogo comigo mesmo


Tenho-te no pranto

dos meus olhos-mar,

na solidão serena

das minhas mãos-âncora,

na luz rebelde, quente,

dos meus olhos-sol,

na loucura toda

do meu corpo-chão

 

e o quase nada que sei

de ti

aprendi nos trilhos amargos

dos dias breves,

na insolência repetida

das questões por responder,

no refúgio escancarado

das palavras que semeio,

a tentar, a repetir, a insistir

na sementeira do amor.

 

E o que não conseguir

deixarei ainda

no rasto indelével dos meus passos

perdidos

para que alguém o tome

nos braços nus

e, hasteando, na incongruência da dor,

o pendão das descobertas,

saiba alcançar os lugares onde sonhei ir,

para partir de novo e sempre

na busca de si mesmo

entre a multidão de tantos.

 

Bate coração!

E mesmo no último momento

grita,

pois (tu sabes) a morte é o lado nocturno

da vida!

 

E o temor não é razão

para recusar a teimosia

do passo seguinte!

 

 

by Paulo César, em 05.Out.2009, pelas 15h30


sinto-me:
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publicado por Paulo César às 15:54
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