Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014
Do alto da minha janela

 

do alto da minha janela aberta

à noite, ao luar e ao longe

vejo o que vejo e o que almejo.

 

as casas caladas, que ficam do outro lado

da rua,

os carros, que correm atrás dos sonhos

dos condutores acelerados,

as árvores, nuas de ninhos e prenhes

de pássaros imberbes,

os cães vadios rosnando a fome

junto aos caixotes do lixo,

os gatos no cio miando desejos,

com olhos de perdição felina,

as luzes trémulas das luminárias, que incendeiam

as artérias hirtas de sangue e suor,

tresandando a feromonas,

o assobio oblongo dos ventos agrestes,

resvalando nas esquinas em estafetas miméticas,

e os olhares vasos de quem se arrasta traumaticamente

para o cadafalso das casas cheias de vazio,

ornamentadas de projectos anacrónicos

e muitas discussões hermeticamente assassinas.

 

do alto da minha janela aberta

vejo um rio de veludo azul

entroncando num céu de panorama anil

e todos os aviões de carreira que vogam

nas correntes ascendentes em direcção a todos os lugares

que eu penso existirem, onde dizem que existem,

ainda que nunca os tenha chamado pelo nome próprio,

nem cumprimentado com um trivial bom dia.

 

já empreendi que, do parapeito da minha janela

aberta à noite, ao luar e ao longe,

eu poderia erguer uma escada de fios de teia

e por ela subir ao lugar mais secreto que conheço,

ainda que nunca lá tenha ido com os olhos totalmente abertos

e capazes de ver o que lá existe.

não sei... não há quem acredite que o lugar mais secreto que conheço

sou eu mesmo,

inquietando-me de ser apenas a imagem mínima

do que verdadeiramente sou.

 

e isso faz-me como que uma comichão ou frenesim.

se eu, que sou, não me conheço,

quem me haverá de conhecer a mim?

 

 

Em 16.jun.2013, pelas 00h30

PC

 


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publicado por Paulo César às 21:04
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