Sábado, 23 de Setembro de 2006
João... João quê?

A semana passada, descia eu, como sempre, a rua em direcção à baixa, deparei, olhos nos olhos, com um miúdo, criança ainda, que, de cigarro entre os dedos, se cruzou comigo, em sentido contrário, soltando, à passagem, anéis de fumo negro, que se desfaziam céleres no ar fresco da manhã povoada dos ruídos todos da cidade que se espreguiçava, por essas horas, junto às paragens dos autocarros e dos eléctricos, ou se arrastava para o fundo dos túneis do metro.

Sorriu-me à medida que me olhava com os seus olhos verdes, felinos, e se afastava mais, sugando a nicotina mortífera que lhe alimentava o vício. Era pequeno demais nas calças sujas e remendadas. Chinelavam-lhe nos pés uns sapatos que serviam, decerto, ao seu pai (se é que o tinha) e a camisa parecia ter andado algures num caixote do lixo. A cabeça mais se assemelhava a um ouriço caixeiro, com os cabelos sujos e desgrenhados, arrepiados e oleosos. Parecendo despreocupado lá seguiu, desaparecendo na esquina adiante. Mas, no meio daquela silhueta de mendigo, sobressaiam os olhos... lindos e faiscantes!

Por momentos senti vontade de me voltar e chamá-lo, para saber ao menos o seu nome. Quem sabe se teria nome? Foi um sentimento instintivo de carinho, mas ao misturar-me com o povoléu e embrenhar-me no mundo citadino dos sinais e das filas compactas de gente que se atropelava mutuamente, enquanto se espreguiçava e esfregava os olhos ainda inchados do sono, esqueci-me dele. Assaltou-me então a preocupação do dia à minha frente e tomei atenção ao semáforo que me interditava a passagem.

Estava agora na Rua Augusta! Lancei, de relance, o olhar ao arco, avistei o Terreiro do Paço e divisei um bando de pombos e mais longe uma gaivota espraiando-se, também ela, sob os raios do sol que despontava. No Tejo, os cacilheiros iam e vinham no dorso das águas, carregando magotes de gente e do lado de lá, na outra banda, Almada mostrava-se ao dia nascente.
Envolvia-me a cidade de Lisboa com tudo o que a compunha. Já não me preocupava o miúdo de olhos verdes, lindos!



Quem conhece a Rua do Arsenal sabe como é o movimento à hora de almoço. Há gente que corre para um lado e para o outro; há turistas olhando as montras das lojas e comentando nos seus dialectos intragáveis; há velhos arrastando a vida e as bengalas com esforço; e há muita gente, de pé, junto aos balcões dos restaurantes, onde se come “bem e barato”... e com rapidez!

São funcionários, com horas curtas e relógios onde o tempo se esgota num ápice, que por ali campeiam, invariavelmente do meio dia à uma e meia, e que falam do futebol à segunda, do chefe à terça, das intrigas do emprego à quarta, da lotaria à quinta e dos palpites para o totobola à sexta. Não sei se fala de alguma coisa ao Sábado e ao Domingo...
É exactamente a meio da Rua do Arsenal que existe uma tasca pequena: o Vale do Rio! Uma das tais que serve “bem e barato” ... e com rapidez!

Lembro-me que era cerca da uma hora.
Mandara vir dobrada e aguardava. Olhava o movimento lá fora. Ao mesmo tempo o 23 para S. Bento chiava nos carris a abarrotar pelas “costuras”. Parecia impossível caber tanta gente naquela “casa amarela”, ambulante. Mas lá foi chiando. Sentado num banco alto, ao balcão, suava por todos os poros. Abafava-se...

A dobrada chegou...
Chegou também um miúdo, criança ainda, com as mesmas calças, sapatos e camisa daquela manhã. O olhar era ainda mais felino e o cabelo mais arrepiado. Reconheci-o...
Olhou-me com um sorriso envergonhado e falou...

- Tenho fome... Dê-me cinco paus para comprar uma sandes...

O sangue gelou-se-me nas veias. Senti um arrepio, como se algo cortante tivesse rasgado as minhas entranhas. Olhei-o, olhos nos olhos, medi-lhe a fraqueza macilenta no corpo enfezado e vi-lhe no bolso da camisa um maço de cigarros “SG Filtro”. Era uma crueldade terrível aquela criança por ali... Viciado e faminto...
Chamei o empregado...

- Octávio, dá-lhe uma sandes... pago eu! E um sumo...
- Como te chamas? – perguntei-lhe.
- João... – respondeu ele, com o olhar pregado ao chão e a voz abafada.
João, pensei comigo, João quê?

Veio a sandes e o sumo. João devorou-os com avidez e agradecido saíu porta fora, saltando de alegria e balbuciando:
- Obrigado, senhor!

Senti-me bem ao ouvi-lo agradecer e partir mais feliz e acabei de almoçar a pensar no João dos olhos verdes, felinos.
Onde iria dormir à noite? Teria família? Teria casa? Morava onde?
Chamei o empregado, era uma hora e quarenta.
- Octávio, faz a minha conta, se faz favor!

E fez, num instante, à minha frente, olhando o prato, o pão, a bebida, a fruta, o café. E também a sandes e o sumo do João.
- Ora, são 136$50! – disse, entregando-me a folha do bloco com as parcelas descriminadas.

Barato... Só que quando fui para pagar não tinha carteira. Desaparecera... Documentos, papeis sem valor e algum dinheiro. Pouco dinheiro, mas o que me restava. O João tinha-se encarregado de me levar a carteira.

O João... João quê?

Ainda fui à porta levado por uma reacção instintiva de revolta e desespero. Olhei a rua na direcção da Praça do Município. O movimento aquela hora aumentava. Buliçosa a cidade regressava aos empregos. Desolado, praguejei baixinho, de mim para mim.
Um reclame, por cima de uma porta, indicava uma casa revendedora de lotaria e agente do totobola, além de outros negócios sem expressão.
Tinha um nome pitoresco. Decorei-o: “A Esfera da Sorte”!

E balbuciei, engolindo a raiva: porca de sorte, a minha!


 Conto by Paulo César, em 09.Set.1981

 


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publicado por Paulo César às 04:59
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