Quarta-feira, 4 de Abril de 2012
Fastio

 

Já não me seduzem as purpurinas das vestes dos magos,

A luz sedutora dos foguetes de lágrimas derramando-se,

A sonoridade insidiosa das melodias insonsas e aveludadas,

O odor agridoce das palavras esdruxulas rendadas nas franjas,

Os sorrisos convenientes em lábios caiados de baton barato.

 

Não me incentivam as criaturas que se travestem de nababos,

Rastejantes de efeitos coloridos nas carapaças resinosas,

Batráquios esverdeados, anfíbios nascidos nos dejectos da perfídia,

Roedores de causas sociais infectados de escorbuto e febre tifoide nas visceras,

Manipuladores de boas intenções, que meneiam as ancas siliconadas.

 

Recuso os aplausos, as vénias, as loas e os labéus dos malabaristas,

Que se equilibram na cúpula das tendas de circo e lançam fogo pelas narinas,

Como se fossem dragões de Komodo (que não deitam fogo pelas ventas)

E se elevam acima do sururu das multidões para parecerem deuses,

Que transformam água em sulfato e pó em ouro branco, invisível.

 

Olho e procuro ver o fundo profundo dos abismos sebastiânicos,

Escavo a orla dos oceanos junto aos areais das praias insalubres,

Sondo as cavernas e as grutas onde a voz ecoa e ressoa em espirais,

Observo a infinitude das galáxias onde os buracos negros são protuberâncias

Que se elevam apesar dos fastidiosos duelos que travo contra a sensaboria.

 

O modo como me reflicto no silêncio que o espelho projecta com indiferença

Diz de mim o que eu não digo por palavras formais, cinzeladas, de filigrana,

Mas que grito na obscuridade das minhas viagens interestelares absurdas,

Quando mergulho na natural ubiquidade da minha transparência corrosiva

Para deflagrar como pedra lançada ao lago onde as águas imóveis se revoltam.

 

O ruido dos enxames que pululam em torno de plantas carnívoras, causa-me fastio!

E as chuvas ácidas que se concentram nas núvens carregadas de sombras

Trazem-me à memória um carnaval de fantasmas com olheiras fundas chispando pragas,

Aspergindo boatos e falsidades, como ladainhas de peregrinos em procissão,

Que não espiam os pecados capitais ainda que se arrastem no lajedo das ruas.

 

O sururu das asas dos mostrengos que se concentram ao redor das estátuas

Erigidas no meio das alamedas e no cento das praças congestionadas de poluição

Levanta o lixo que se acumula nos cantos sombrios e bafientos das ruas sem saída.

Levanto os braços e abraço o vazio prenhe de granulos de luz ténue atordoada...

Quem ousar derrubar as muralhas da minha circularidade, dê um passo em frente!

 

 

Em 03.abr.2012, pelas 00h30

PC

Imagem: Google

 

 


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publicado por Paulo César às 22:32
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