Quarta-feira, 3 de Março de 2010
TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO DO COSMOS (ou uma breve analogia comigo mesmo)

 
Quem me achar
Perdido no mar das angústias
Dos meus dias sonolentos
Não se amedronte com o meu desapego
Ou a minha covardia,
Nem valorize a minha vaidade
Ou a minha impaciência.
 
Sou assim tal e qual
Estranho a mim mesmo
Medroso dos meus medos
Infantis
E destemido da minha razão
Incongruente
Fácil de palavras
Que devoro na modorra do silêncio
Baço e unívoco
Avesso à estridência da visibilidade
Que inflama sem sustentação
Para abandonar sem dó.
 
Sigo uma luz pequenina
E por ela pressinto chegar
Ao cume da serenidade
No topo tangível do sonho!
 
Mas que sei eu disso?
 
Desconheço a verdade que busco
Com insistente denodo…
E rio da minha teimosia
Por saber que não alcançarei
A justiça que auguro!
 
Acredito no amor…
Acredito na dádiva sem preço…
Acredito no sonho sem biombos
Nem sabotagens torpes…
Acredito nos teus olhos cristalinos,
No teu sorriso de papoila do campo,
Nos teus beijos com sabor a dióspiro,
No calor do teu abraço calado,

 Na promessa adivinhada

Do teu corpo ardente de paixão,
Na transumância vadia da tua saudade
Que me chama sem cessar
E me pede que não parta.
  
Acredito nas minhas dúvidas incessantes
E nas minhas inquietações permanentes
Acredito nas ondas do mar
Que se abandonam na areia da praia
Deserta
Acredito na aragem quente
E também na frescura das manhãs
Chuvosas
Acredito nas fases da lua,
Nas marés e nas profecias anónimas;
E desconfio dos anjos da guarda
Que falam por silogismos
E lançam ideias que são lugares comuns!
 
Acredito que sou
- Que somos - um pedaço
Do infinito…
Mesmo que o infinito
Não tenha cor, sabor, tamanho ou forma
E possa existir apenas
No meu pensamento selvagem!
 
Nada sei de relevante
Ou misterioso,
Mas empenho-me em ser
Constante e voluntarioso…
À noite durmo e sonho
Durante o dia sonho e teimo
Vencer a força da gravidade
De conceitos intelectualmente
Desonestos.
 
O determinismo acorrenta-me
E desencadeia nos meus sentidos
Reacções autofágicas
Que combato num ringue
Vazio
Onde a minha sombra
Se impõe na tragicomédia
Duma encenação surreal
Onde o monólogo que protagonizo,
De que sou também autor e plateia,
Diz da minha existência
Factos que o não são,
Para evidenciar qualidades
E defeitos que não tenho.
 
Simbolicamente estendo-me sobre o divã
Onde psicanaliso o tempo,
O espaço,
A memória,
Procurando adivinhar o futuro.
 
Entram pelas janelas abertas
O quarto crescente da lua,
O voo ruidoso dum avião,
O pio sibilino dum mocho sábio,
As cataratas de Niágara,
As Pirâmides de Gizé,
O tantã dos tambores duma tribo africana,
Os gemidos duma mulher possuída
Pela ardência do sexo,
O choro duma criança órfã,
O coro ululante duma claque
Num estádio enlouquecido,
O silvo dum comboio ou dum barco
Num cais de embarque, algures,
A miragem onírica dum oásis
No deserto de Kalahari,
Um grito de dor numa sala de parto,
Uma voz feliz
Declamando um poema de Lorca,
Um coro solene
Entoando uma cantata sem nome,
Um homem chamado Josias,
Uma mulher com rugas macias
E mãos de fada,
Uma imagem da terra vista do espaço
E uma fotografia dos anéis de Saturno,
Um cão, um burro, uma pomba
E um carreiro de formigas constantes,
Um rio quase mar
Na confluência da foz salgada,
Um barco a remos e uma gaivota
De voos incertos,
A noite… a noite… a noite…
E as esquinas escuras
Com corpos perdidos na confluência
Do álcool e da solidão,
Uma canção de ninar
Numa voz que conheço
Mas que não sei identificar,
Uma criança loira, ou morena,
Ou negra, ou cigana,
Ou apenas criança,
Um ruído como um assobio
Que se aproxima devagar
E se perde lentamente
Até que adormeço!
 
Quando o relógio me acorda
Já é outro dia…
Onde raio deixei eu os óculos,
Que me ajudam a ver melhor?
 

Em 13.Jan.2010, pelas 23h00 – Paulo César

 


sinto-me: regressado
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publicado por Paulo César às 23:41
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