Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
Porque me doem os domingos?

 

Sabes porque me doem os domingos?

 

Sabes porque me incendeiam ressonâncias

de sons e imagens

perdidas

que retornam nas horas sossegadas

frente ao televisor?

 

Saberás explicar-me porque vem a nostalgia

tão mansa como a aragem do final

da tarde

inundar o corpo e a mente

trespassando com a força

de um punhal

os sentidos todos

até me deixar inerte e devastado?

 

Que força indomável é esta

que entra pelas frinchas

e se apossa do espaço

para carregar o ar de uma luz translucida

que me torna frágil

dominando a minha vontade

e a minha racionalidade?

 

Que auréola satânica

traz o domingo consigo

que sempre se impregna em mim,

reverberando, como num labirinto,

vozes insanas que pedem socorro,

imagens idílicas que parecem mentira, 

sonhos luminosos, que viram pesadelos,

sentimentos silenciosos

que morrem por si mesmos,

na angústia duma solidão mostrenga?

 

Porque sãos os domingos dias tão austeros?

E tão devastadoramente pesados?

E tão vagarosamente cheios de silêncios estripitosos?

E tão luminosos duma luz parda, fria, bafienta?

E tão cheios de passos abafados, que ecoam nas calçadas

a caminho de sítio nenhum?

 

Porque são os domingos planos e inodoros,

vagos no tempo que os torna redondos,

pedaços de uma semana que começa sem um princípio,

sustentáculos dum circulo cujo centro

não me acolhe, nem me recusa,

mas me confunde e desmembra

como se quisesse tornar-me outro?

 

Porque me doem tanto os domingos,

a cada nova semana que chega,

deixando marcas indeléveis de angústia

aflitiva, demente, autofágica,

remetendo para uma luz que já não é,

um tempo que já foi,

um futuro que aconteceu sem aviso,

um caminho feito de tropeções

e recomeços?

 

Porque me doem tanto os domingos

fáceis, solarengos, inusitados,

se o tempo se esboroa sem notícia

nas débeis tardes do desvario

quando o horizonte se pinta de manchas

escarlates

e matizes de ocaso?

 

 

by Paulo César, em 18.Out.2009, pelas 20h00

 


sinto-me: inquieto
Palavras chave: , , ,

publicado por Paulo César às 09:28
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1 comentário:
De rosafogo a 22 de Outubro de 2009 às 20:52
Este descreve muito bem todos os sentimentos que
penso passam por nós. É exactamente o que sinto em relação ao Domingo, os meus durante trinta e muitos anos foram o anteceder da separação, dado que na tarde já era abundante a tristeza p'la partida e a madrugada
o dizer adeus.
Também ainda hoje me dói ao lembrar.
É tu como sempre fizeste um belíssimo poema.

Abraço
amigo

natália


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