Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Velhos

 

Para aqueles que são a razão de estar aqui!

 

Não vos sinto as dores,

nem vos oiço os queixumes,

nem conheço os vossos sonhos adiados,

nem sei dos vossos medos,

nem adivinho a grandeza das vossas solidões,

nem pressinto o fervor da vossa fé,

ou a grandeza dos vossos projectos,

ou a temerária audácia dos vossos futuros

de gente de mãos calejadas,

de pernas doridas e prestes a ceder,

de corações quase extintos, abafados,

dos vossos olhares nublados,

dos vossos sorrisos macilentos.

 

Sei de vós quase sempre, apenas,

o comprimento da vida

medida em anos,

em imagens fantásticas

que nos mostram, como se quisessem

calar-vos, enclausurar-vos,

numa redoma de luares de Agosto!

E esses não sois vós,

os velhos que eu amo velhos,

que eu respeito velhos,

que eu, numa vénia de quem agradece,

quero velhos,

dessa velhice que ensina,

que encoraja,

que enaltece,

que gera respeito,

que apela à escuta

das palavras simples e sábias

em discursos mil vezes repetidos,

a pedir ouvintes.

 

Quero-vos, velhos,

assim mesmo, velhos de tempo,

velhos de alma e espírito,

velhos de muito passado,

que apela a muito futuro,

velhos de muita dor e tristeza,

que pedem muita alegria e entrega,

velhos de muitos filhos e netos,

que apontam mais família,

velhos de muita fome,

que exigem muita solidariedade,

velhos de muito trabalho,

que merecem o trono da vida,

velhos de um povo do mundo,

cujo direito supremo

consiste em ser ainda

velhos!

 

Quero-vos VELHOS!

 

Valentes homens e mulheres,

Extraordinários pais, mães e avós,

Lindos rostos cujas rugas venero,

Humanos gestos onde o sonho perdura,

Olhos terrenos dum Deus presente, em

Sábias palavras que de ouvir não canso!

 

Quero-vos VELHOS!

Para beber dos vossos lábios

a serenidade que explode

como bênção

dos silêncios que caem depois das palavras

enquanto buscais no baú das memórias

o saber que o tempo decantou

em arquivos onde sois os guardiões!

 

Quero-vos...

E porque assim o aprendi de vós

vou esculpir na pedra da vida,

a cinzel, para que não se perca

na voragem do tempo,

o louvor que as vossas cãs merecem:

 

Queridos velhos, velhos são os trapos!

 

 

by Paulo César, em 05.Out.2009, pelas 17h00

 


sinto-me: grato e feliz
Palavras chave: , , ,

publicado por Paulo César às 17:35
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1 comentário:
De rosafogo a 6 de Outubro de 2009 às 21:27
Vale sempre a pena vir ler-te. Mas, já estou a fungar,
sabes, é o resultado do que por aqui se lê.

É habito ler sempre mais que uma vez, mas hoje não sou capaz, vou voltar num dia em que a velhice me pese menos.Hoje me aninho nas tuas palavras abandono pensamentos negativos,e quem sabe amanhã ao pôr o pé no chão não me sinta outra?!

Mas não vou embora sem ler os anteriores, este está magnífico, parabéns.

beijinho
natalia


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