Sábado, 5 de Julho de 2008
Do chão e da alma

 

Há no ar uma magia

desconcertante

e a luz tem o sabor

impregnado das amoras silvestres,

como se fora lua cheia

e os pirilampos ziguezagueassem

ao encontro do sonho

nos penhascos da via-láctea.

 

Sinto-me cheio da vontade

de ir na direcção do acaso

a colher marmequeres campestres

e papoilas rubras de desejo

ouvindo o coachar de rãs preguiçosas

ou o zumbido de abelhas ladinas

no silêncio de sombras vivas

à beira de caminhos feitos de passos imponderáveis.

 

Sento-me onde me sinto cansado

e retomo a marcha quando me chamam os pássaros

ou quando os latidos agudos dos cães vigilantes

demarcam o espaço entre o possível e o ímpossível.

Quando me deito é porque a noite me abraça

e envolto na sinfonia maniqueista dos ralos notívagos

dou de caras com a matemática da vida

e enceto a aprendizagem duma tabuada informal.

 

Somo parcelas imprevisíveis de vontade,

subtraio arremedos de decisão,

multiplico por ansiedade a demência do tempo gasto

e divido em partes iguais o que não é divisível.

E o que sobra, se acaso sobra,

não é resto nem quinhão,

é um conjunto de nada e vazio

que preenche tudo o que sou

até transbordar pelos poros cavados

na rudeza da pele gretada

como sulcos de arado no campo em pousio

onde não crescem nem cardos nem girassois,

nem hortênsias ou morangos,

mas germina libertinamente

a erva alta que ao longe parece seara

e ondeia como seara

 e cresce, e vive, e amadurece como seara

que não é, mas parece ser.

 

Inspiro fundo a bsorver os odores todos

que enchem o espaço, do local ao infinito,

até ficar zonzo da plenitude das fragâncias.

E adormeço sem a noção do sono ou do sonho

esbugalhando o olhar para me perder no horizonte

e mergulhar na vida viva que se alimenta

do sol e do mar, da noite e do dia,

e de mim!

 

É então que caminhando acordo de estar acordado

e busco no espaço em redor

a origem dum arrulhar inconfundível...

No cimo dum ramo seco que foi pinheiro,

ou azinheira, ou sobreiro, ou o que tiver sido,

uma rola breve cumprimenta-me de passagem

dizendo-me na sua linguagem de ave que eu reconheço:

- Cucurru... Cucurru... Curru...

 

É nesse momento que os olhos ficam marejados

e, seguindo embora, os passos já não vão,

ficam ali, entre o caminho e o destino,

a saborear o momento único e a viver o encontro

de mim com o que resta de mim

enquanto a rola se eleva no ar

como se desfraldasse o lenço branco do adeus

e batendo as asas frágeis escrevesse a mensagem

que não consigo dizer por mim mesmo:

- Obrigado!

 

by Paulo César, em 30.Junho.2008, pelas 22h30

 


sinto-me: cheio de vida
Palavras chave: , , , , ,

publicado por Paulo César às 14:26
link do post | comentar | Adicionar às escolhas
|

1 comentário:
De isa a 7 de Novembro de 2008 às 18:09
Olá Paulo à muito tempo que não dizes nada. Está tudo bem?
Espero que sim,fico a espera que escrevas qualquer coisa.
Bjs


Comentar post

Janeiro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


Sobre mim
Pesquisar neste blog
 
Posts recentes

O NATAL POSSÍVEL

N A D A

A melhor maneira de amar,...

Amor platónico

Do alto da minha janela

Só por amor

As minhas asas

Alter ego

Talvez...

Auto-dissecação

Arquivos
Palavras chave

25 abril(3)

alegria(5)

amizade(4)

amor(32)

Análise(3)

angustia(3)

asas(5)

busca(14)

desejo(5)

dor(4)

esperança(9)

eu(5)

futuro(6)

gratidão(10)

grito(5)

homem(4)

interrogação(4)

introspecção(8)

liberdade(11)

luta(3)

luz(4)

memória(7)

morte(5)

murmúrio(6)

natal(3)

natureza(4)

olhar(3)

paixão(7)

palavras(10)

passado(3)

paz(4)

poema(5)

poemas(35)

poesia(148)

saudade(17)

sentimentos(3)

silêncio(10)

sonho(21)

terra(4)

vida(5)

todas as tags

Ligações
Participar

Participe neste blog

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds