Quarta-feira, 25 de Abril de 2007
Carta aberta para um capitão de Abril

Caro amigo, companheiro, camarada! Estimado Capitão de Abril!



Que importa a forma como te cumprimento, se quero mesmo é dizer-te: olá!

Dizer-te que estou aqui a recordar os dias quentes, daquela Primavera de cores inimagináveis, como se de uma autêntica paleta de mestre se tratasse, e a pensar comigo, em surdina, que ainda não fomos capazes de te agradecer, como tu mereces que te agradeçamos.

De facto, no frenesim da descoberta, na pressa da magia, no envolvimento dos acontecimentos diários, contínuos,  ingentes, acabámos por dar como adquirido que a "Liberdade estava a passar por aqui" e ia ficar, que "o povo é quem mais ordena" e seria capaz de arregaçar as mangas, que em "Maio, maduro Maio" outro seria o tempo e melhor o espaço e em uníssono haveriamos de alcançar o sonho.

Perdoa-nos, arquitecto da nossa Democracia, do nosso Desenvolvimento e da nossa Descolonização, o nosso esquecimento colectivo. Devemos-te o empenho, a entrega, a ousadia, a aventura da Liberdade!

Hoje falamos muito, de tudo, sem peias, sem medos, sem fantasmas ou ouvidos algozes nos cantos, as esquinas, na sombra insidiosa. Exprimimos os nossos credos e as nossas indiossicrasias. Chegamos a ser cruéis com a liberdade de que gozamos!
Estamos a criar o hábito medonho e feio do bota-abaixo! Apontamos o dedo, avaliamos as atitudes alheias, gizamos ideias, concebemos tácticas e estratégias, mas quedamo-nos na conveniente atitude de esperar que aconteça, que alguém faça, que alguém dê o mote, para voltarmos a ser críticos, carrascos, algozes da disponibiliddade, do desassombro, do voluntarismo.

A nossa pequenez agiganta-se! O nosso provincianismo assusta-me! Eça e Ramalho tinham razão nas suas destemidas "Farpas"!

Por isso, estimado Capitão, aproveito esta data para te dizer clara e frontalmente:
        OBRIGADO!

Precisamos cada vez mais da tua coragem, do teu destemor, do teu desapego ao poder, da tua simplicidade de gente boa!

Será que perdemos a capacidade de ser um povo de arrojados empreendimentos?
Será que já demos todos os mundos ao mundo?
Acaso seremos nós, na terra luminosa da "Ocidental Praia Lusitana" os "vencidos da vida"?

Estimado Capitão de Abril, ainda sinto o eco das vozes em coro gritando, a plenos pulmões, que o "Povo unido jamais será vencido"! Ainda ressoa nos meus tímpanos a cantata sublime da "Grândola, vila morena"! Ainda tremo ao ouvir o som da marcha que antecedia a leitura dos comunicados do MFA, religiosamente escutados nos rádios de pilhas que enxamearam todos os cantos do nosso país naquele dia 25, de sol!

Hoje, mais velhos e mais calejados, já não nos movem sonhos impossíveis, mas continuam vivas e presentes as ideias de transformação, tendo por objectivo uma maior equidade na distribuição da riqueza, uma educação de qualidade, uma saúde para todos, uma justiça que o seja sem subterfúgios, num país onde os portugueses sejam pessoas de bem, abertos ao mundo, à paz, ao desenvolvimento e ao progresso.

Não deixei de acreditar! Mas precisamos cada vez mais de braços para dar corpo à obra!
Vamos conseguir? Fica a interrogação...

Deixo-te um abraço fortissimo de gratidão! Bem hajas!
Acredita que te estimamos, amigo, companheiro, camarada!
Acredita que não esquecemos o teu gesto nobre, estimado Capitão de Abril!


by Paulo César, em 25 de Abril de 2007
à memória de Salgueiro Maia, português, capitão e homem
 

sinto-me: grato

publicado por Paulo César às 21:48
link do post | comentar | Adicionar às escolhas
|

Janeiro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


Sobre mim
Pesquisar neste blog
 
Posts recentes

O NATAL POSSÍVEL

N A D A

A melhor maneira de amar,...

Amor platónico

Do alto da minha janela

Só por amor

As minhas asas

Alter ego

Talvez...

Auto-dissecação

Arquivos
Palavras chave

25 abril(3)

alegria(5)

amizade(4)

amor(32)

Análise(3)

angustia(3)

asas(5)

busca(14)

desejo(5)

dor(4)

esperança(9)

eu(5)

futuro(6)

gratidão(10)

grito(5)

homem(4)

interrogação(4)

introspecção(8)

liberdade(11)

luta(3)

luz(4)

memória(7)

morte(5)

murmúrio(6)

natal(3)

natureza(4)

olhar(3)

paixão(7)

palavras(10)

passado(3)

paz(4)

poema(5)

poemas(35)

poesia(148)

saudade(17)

sentimentos(3)

silêncio(10)

sonho(21)

terra(4)

vida(5)

todas as tags

Ligações
Participar

Participe neste blog

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds