Domingo, 11 de Março de 2007
Carta (em pezinhos de lã)



Sabes, hoje apetece-me dizer coisas sem nexo.
Coisas que tu entendas e que eu não saiba como dizer,
coisas simples, que se complicam na medida em que eu
sou incapaz de dize-las de forma escorreita,
simplesmente.

Hoje apetece-me escrever uma carta, com palavras
raras, quase preciosas, com consabidos sons que só tu
percebas e saibas decifrar no silêncio da leitura,
talvez sentado no sofá da sala, ou deitado,
de papo para o ar, no quarto cheio de luz que entra
como se jorrasse duma fonte eterna, duma nascente
miraculosa, dum algar de remotas cavidades,
quase uterinas, quase fermentadas no desejo ou no sonho.

Sinto as palavras deambularem por todo o meu corpo,
inundarem as minhas entranhas, aflorarem aos meus lábios
e, sem pudor, cavalgarem os meus braços, as pontas
dos meus dedos, que agitados e impacientes, buscam
papel e caneta e fazem uma algaraviada de rabiscos
enchendo de alto a baixo aquela folha branca, abandonada,
inerte, que se havia aninhado numa gaveta escura
como se aguardasse a hora de fugir, no sopro pressuroso
do vento norte, quando a lua estivesse pendurada na Via Láctea.

Sinceramente, apetece-me escrever, simplesmente escrever.
Amor, água, sol, pedra, silêncio, esperança,
cantigas, sorrisos, beijos, olhares,
cavalgada, liberdade, mar, azul, horizonte,
desejo, livro, poema, sexo, terra, rio,
sul, longe, pessoas, caminhos, nunca,
talvez, sim, porque não, obrigado!

Apetece-me marcar o tempo da escrita
com este impulso que me obriga a escrever,
que me empurra para o lugar único de mim
comigo, como se atingisse o extase, o climax,
o transe, e fosse nesse momento, que são muitos,
mas sempre únicos, estoutro de mim mesmo.



Tu sabes do que falo!

Tu sabes do que escrevo!
Tu sabes o que sinto!

Por isso, hoje, quando escrevo, apetece-me pôr
na folha lisa, sóbria, disponível, todas as palavras possíveis
e algumas espúrias, como guerra, armas, fome, doença,
solidão, abandono, ódio, desespero e todas as que não
cabem no meu dicionário de sinónimos,
porque não sei como traduzi-las (nem me apetece)
e cheiram a mofo, a morte, a corrupção da vida.

Como gostaria de escrever palavras bonitas, belas,
prenhes de fulgor e vida, transbordantes de luz.
Palavras capazes de por si mesmas construir amizade,
fomentar carinho, desenvolver ternura, desencadear amor,
cultivar sorrisos, entreajuda, felicidade,
e mandar, sem vacilar, para o caixote do lixo, real
ou virtual, todas as que não fazem falta e andam por aí
a causar desencanto e desacato.

Hoje, apetece-me escrever uma carta como nos bons
velhos tempos, pontuando os sentimentos com trejeitos
de paixão, de encantamento, de loucura,
para te fazer sentir de novo jovem, remoçado,
embevecido no embalo duma paixão avassaladora,
única e eterna, para sempre, definitiva.

Hoje, a carta que te escrevo, escrevo-a em pezinhos de lã,
como se cada sílaba fosse de algodão doce,
ou de farófias, ou de sorvete de leite e chocolate,
e cada palavra levasse consigo a cadência de beijos,
o sussurro de segredos, a fugaz ausência de um adeus
lançado de longe, antes do virar da esquina e da perda.

Não! Hoje esta carta quer dizer simplesmente
o que me apetece dizer, como se o tivesse que dizer
obrigatoriamente, antes de mais nada.
Tu és o destinatário e sabes o motivo.
O remetente também sabe a razão, só não sabe explicar
PORQUÊ?


by Paulo César, em 11.Mar.2007, pelas 20h15


sinto-me: estranhamente eu mesmo
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publicado por Paulo César às 19:44
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